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Ano Pastoral 2019 / 2020

Como os ramos na videira, todos filhos de Deus

Tema para Janeiro

O Batismo é tarefa em aberto…

um estilo de vida:

filiação divina e inserção na Igreja.

 

Ao celebrarmos o Ciclo do Natal deverá ressoar em cada um de nós as palavras do aos pastores: “anuncio-vos uma grande alegria...” (Lc 2, 10). Sim na verdade, só a alegria pode exprimir a “reviravolta” de um Deus que se revela como aquele que busca o homem e desce ao seu encontro. É este o primeiro aspeto do mistério da encarnação: o homem não alcança Deus (como poderia fazê-lo?), é Deus que alcança o homem. Por isso, Jesus é o sinal de que Deus nos salva, é a “aparição visível” no meio dos homens. É o Emanuel “Deus connosco”, por isso será chamado Yeshua (no original hebraico) que, etimologicamente, significa “Deus salva”. Como nos descreve a primeira carta de S. João, “O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamos-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós” (1 Jo 1, 1s). Na verdade, os discípulos, depois a Igreja, descobrem que o amor do homem Jesus é a encarnação humana do amor redentor de Deus. Esse é o grande gesto sacramental de Deus: “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, …, a fim de recebermos a adoção de filhos”. (Gl 4, 4).Cristo é o Sacramento Primordial porque é o sinal da divinização do homem, é o modelo da adoção filial a que Deus quer elevar todos os homens, pois vem “congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11, 52), uni-los a si num só Corpo, o Corpo de Cristo. Torna-se assim “o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8, 29).

Desde o princípio Deus prepara amorosamente o berço dos homens seus filhos. No princípio, sobre as águas que vão gerar toda a vida, está presente o Espírito de Deus. Nada fará esquecer que todo o homem nasceu dessa Fonte e desse Espírito “à sua imagem e semelhança.” Não obstante a perversidade dos homens, Deus manterá a sua fidelidade e d’Ele só pode provir amor. Por isso, desde o princípio, Deus envolve-se nessa história que ele inaugura, dá-se, progressivamente, a conhecer e introduz-nos numa realidade nova: “se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas” (2 Cor 5, 17). Essa realidade nova é nem mais nem menos “a participação da natureza divina” (2 Pd 1, 4). Somos chamados a ser um só com Cristo pois, dirá Jesus, “ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14, 6). “Ninguém se torna cristão por iniciativa própria. Tornar-se efetivamente cristão é dom do Alto, é graça recebida para ser correspondida. Por isso, a condição cristã gera-se no Batismo”, (PLANO Diocesano de Pastoral 2019-2020, Pórtico nº3). Este é o sacramento primordial do nascimento para a vida nova oferecida a toda a humanidade em Jesus Cristo. Pela Sua morte e ressurreição tornou-se o Kyrios, o Senhor, centro de todo o universo, desde Adão até ao fim dos tempos. Toda a história está mergulhada no acontecimento da Salvação realizada em Jesus Cristo. Isto mesmo enfatiza Paulo na sua carta à comunidade de Corinto (Cf. 1Cor 10). Importa sublinhar que “batizar” é a transcrição do verbo grego Baptizô que significa “mergulhar”. É esse o sentido original do batismo: o homem está mergulhado no acontecimento da Salvação, está mergulhado em Jesus Cristo. S. Paulo, no capítulo 6 da Carta aos Romanos, põe em manifesto a estreita relação entre o batizado e Cristo. Não se trata de uma vinculação a Cristo glorificado mas da participação na sua páscoa, no acontecimento histórico da sua morte e ressurreição, que se atualizam sacramentalmente. “Fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova” (Rm 6, 4). O batismo não é apenas o início da existência cristã, mas o chamamento constante a essa mesma existência, o estímulo incessante para uma vida cristã no mundo. O batismo conduz “ao serviço de Deus”, ao serviço aos irmãos e a todos os homens, na vida diária neste mundo. São Basílio Magno (séc. IV) numa das suas homilias sobre o batismo reafirma essa mesma ideia “o tempo do batismo absorve toda a vida do homem”. Como exortação a não cair no desleixo, ao sair da água entregava-se ao neófito uma vela que recordava a lâmpada das virgens da parábola (Cf. Mt 25, 1-13), que deviam ter constantemente acesas até à chegada do Esposo: “Agora sois luz em Cristo. Vivei sempre como filhos da luz. Perseverai na fé, para que, quando o Senhor vier, possais ir ao seu encontro com todos os Santos, no reino dos céus” (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos n. 266). Este novo modo de existência, esta vida nova, só subsiste se em conexão com essa corrente vital que imana da água e do Espírito.

À semelhança de Isaías e do Salmista (Cf. Is 5 e Sl 79) que haviam comparado o povo de Israel a uma vinha que necessita de cuidados continuados, Jesus retoma essa imagem em espírito de continuidade, mas redu-la: Ele é a cepa e nós os ramos, um só e mesmo ser vivo, com a mesma raiz e a mesma seiva. O ramo há de estar ligado à videira: “quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto” (Cf. Jo 15, 1-8). Com efeito, a Igreja é Jesus Cristo vivo em forma de comunidade. Ele constitui com os cristãos “o Cristo total, cabeça e membros”, segundo a expressão de Sto Agostinho. “Todos fomos batizados num só Espírito para formar um só corpo” (1 Cor 12, 13). Segundo S. Paulo, a Igreja é Corpo de Cristo: isto significa realmente o Corpo pessoal de Cristo ressuscitado. Todos os que a Ele estão unidos, no seu ser corporal em virtude da fé e dos sacramentos (batismo e eucaristia) beneficiam desde já da sua vida de ressuscitado. Uma outra expressão querida por S. Paulo é a de membros uns dos outros: “os muitos que somos formamos um só corpo em Cristo, mas, individualmente, somos membros que pertencem uns aos outros” (Rom 12, 5). Um Corpo realmente unificado em Jesus Cristo: “como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos batizados para formar um só corpo” (1 Cor 12, 12s). Membros uns dos outros na diversidade de funções na unidade de vida, na riqueza e na harmonia do todo, na reciprocidade dos serviços, na ternura para com o que sofre, na íntima fraternidade no meio da mesma comunidade.

Cada batizado, no seguimento de Jesus, está chamado a ser servo por amor. Hoje mais do que nunca, este tempo marcado pela solidão e ausência de amor, precisa da audácia de gestos significativos e inequívocos de caridade, que tornem credíveis o anúncio da palavra pois “se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 Jo 4, 11)