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Ano Pastoral 2019 / 2020

Como os ramos na videira, todos filhos de Deus

Tema para o Advento

Como Maria abrimo-nos ao dom de Deus

 

Maria, surpreendida no quotidiano da sua vida pela intervenção celestial, aquiesce em receber, no aconchego do seu cândido útero, a insuflação divina conducente à encarnação do Verbo de Deus. Este “faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38) revela a vocação de Maria que, da sua conceção à sua assunção, manifesta-se sempre MÃE.

Ao sim de Maria seguiu-se um singular percurso exemplar de mãe.

De Nazaré a Belém manifesta-se o cansaço desta jovem mãe lutadora que, na iminência do parto, tenta tranquilizar a vida uterina, face à sinuosidade territorial de tão árdua viagem (Lc. 2, 4-5).

De Nazaré ao Egito levando, apressadamente, o bebé recém-nascido para longe da crueldade humana (Mt. 2, 14) sente a dificuldade de habitar num país que não o seu. Do Egito a Nazaré, afere a felicidade do ambiente familiar dos que a viram crescer e a ouviram partir (Mt 2, 23).

De Nazaré para Jerusalém leva o filho para a alegre festa pascal (Lc 2, 41). De Jerusalém a Nazaré e de regresso a Jerusalém, mãe que sofre a angústia de, em 3 dias não encontrar, no vazio da multidão, o seu menino (Lc 2, 45-49).

De Nazaré a Caná (Jo. 2, 1-11) sentindo a aparente contradição das palavras do Filho (“Ainda não chegou a minha hora” Jo. 2, 4) mas sendo o ímpeto à ação miraculosa deste (“O que Ele vos disser, fazei-o.” Jo. 2, 5).

Nas terras da Galileia (Mc. 3, 20), comparada entre as demais, pelo Filho, mas entendendo que não é o amor pela mãe que se desvanece mas é o amor por todas as mães, em analogia com a sua, que se enaltece (Mc. 3, 34).

Do sinédrio ao calvário, mãe que acompanha o filho na impotência humana face à mais vil injustiça. Mãe que escuta o último pedido do seu amado filho em sofrimento (Jo. 19, 25-27).

Maria, que no romper da aurora da vida, sente a sincronia do vital respirar e gemido de quem nasce, e na cruz, mãe que ouve o último suspiro e expressão vocal agónica do filho que falece (Mc. 15, 37; Jo. 19, 30).

Mãe que no seu regaço acolhera a alegria de uma vida nova e, ante a cruz, acolhe o corpo esfacelado da mediocridade humana. Mãe que, na dor do luto, afaga o corpo inerte com a mirra anunciada na oferenda dos magos de Belém (Mt. 2, 11).

Mãe que, ante a dor do seu Filho, vivencia as palavras proféticas de Simeão: “ (…) e uma espada trespassará a tua própria alma” – Lc 2, 35 mas acredita nas palavras do seu Filho “ (…) Destruí este templo, e em três dias o levantarei” (Jo. 2, 19).

Mãe que acredita sempre no seu filho e na ressurreição por Ele anunciada. A angústia dos três dias vivida, aquando o desencontro com o seu menino (Lc. 2, 46), volta a senti-la novamente nesses três dias de prelúdio da ressurreição.

Em todo este feérico percurso existencial vemos Maria sempre com uma fé inabalável. Aceita o dom da maternidade divina e assume-o, sem vacilar, com toda a fidelidade – puro amor!

Abraão, pai da fé, que caminha escutando a voz de Deus, fundada num veemente Vai! (“Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te indicar”Gn. 12, 1), e se encontra ancorado na segurança divina – “Nada temas, Abraão!” (Gn. 15,1). Abraão que tem nas suas anciãs mãos o cutelo conducente à morte do seu amado filho Isaac e, nessa singular afeição divina, expressa a sua fé (Gn. 22, 2 e 6).

Maria, mãe da fé, que ante a proclamação de Gabriel “Não tenhas medo, Maria (…)” (Lc. 1, 30) assume a sua vocação com inefável amor de mãe, caminhando pelos sinuosos caminhos que medeiam Nazaré a Belém, Belém ao Egito, Egito a Nazaré, Nazaré a Jerusalém e por Jerusalém ao Calvário. Maria que tem, nas suas pueris mãos, o filho morto mas em cuja ressurreição alicerça a sua fé. Maria é de facto, mãe da e na fé, mãe da Igreja – santíssima mãe!

Em torno de Maria gravitam quatro verdades de fé, a saber: Imaculada Conceição; Virgindade Perpétua; Maternidade Divina; Assunção em corpo e alma ao céu. Vejamos cada uma delas.

A Imaculada Conceição foi solenemente definida como dogma pelo Papa Pio IX, através da bula Ineffabilis Deus, a 8 de dezembro de 1854. Imaculada Conceição significa que a conceção de Maria foi efetuada sem mancha (em latim, macula) do pecado original. Nove meses depois da data atinente à conceção de Maria (8 de dezembro), celebra-se o seu nascimento (8 de setembro).

No que concerne à virgindade perpétua de Maria, o papa Paulo IV, a 7 de agosto de 1555, no contexto do Concílio de Trento, através da Constituição Cum Quorundam reafirmou a tradição do cristianismo primitivo, de que a Virgem Maria permaneceu sempre na integridade da virgindade, antes do parto, no parto e perpetuamente depois do parto.

Pelo concílio de Éfeso (431), Maria foi considerada Theotokos (mãe de Deus / portadora de Deus / aquela que dá Deus à luz). De facto, sendo Jesus, Deus encarnado, Maria, sendo mãe de Jesus é mãe de Deus (encarnado).

A constituição apostólica Munificentissimus Deus, de1 de novembro de 1950, efetuada sob a manus do papa Pio XII, definiu que “ (…) a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

Tomando Maria como modelo de vida, de quem pela fé enseja caminhar, indaguemos o dom que Deus plasmou na nossa existência (Jr. 1,5) e expressemos o mesmo, sem receios da sinuosidade que o tal trilho possa ter, seja no berço familiar, no núcleo da fraternal amizade, na ação social, no voluntariado, no trabalho, em todo e qualquer caminho que implica seguir Jesus (Lc. 19, 21; Mc. 10, 52).

Todo o tempo é o tempo certo, é o tempo de Deus. Como Maria abramo-nos ao dom de Deus, perscrutemos o sinal volitivo de Deus para a nossa própria vida e, entrando em sintonia com Ele, respondamos afirmativamente no quotidiano da nossa existência (Sl. 139, 4). Aí, com Deus e na relação altruísta com o próximo, amando à maneira de Jesus (Jo.13, 34), a vida assume o real sentido e experimentámos a verdadeira felicidade.

Pedro Fernandes