grapewines

Ano Pastoral 2019 / 2020

Como os ramos na videira, todos filhos de Deus

Tema para Novembro

Como te chamas? O Pai cuida de nós:

identidade e vocação cristã

 

1 – Um Pai que chama à Vida

«Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia” (Jr. 1,5)

A minha existência pessoal - pode dizer cada um de nós - foi sonhada, com amor, pelo Deus que me criou; pensar nisso só pode encher-nos de espanto!

No entanto, Deus não nos criou para uma relação fria com Ele, apenas a relação da “obra” com o seu artífice (mesmo que sejamos uma “obra” valiosa, devidamente autenticada com a “assinatura” do seu “autor” …)

Deus quer muito mais para nós! Quer-nos filhos seus! Para isso, nos fez “nascer de novo” (Cf João 3, 4) no dia memorável em que fomos batizados, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, recebendo, em semente, uma vida nova que está destinada a crescer, sempre mais, até à plenitude da Vida com Deus…para sempre! Ele nos chamou à vida para partilhar connosco a sua própria Vida…  Conhecer tão excelente notícia só pode expressar-se num profundo júbilo e imensa gratidão!

Logo no início da liturgia batismal das crianças, a Igreja pergunta aos pais “Que nome dais ao vosso filho?”; por sua vez, no caso do batismo de adultos, no rito da admissão dos catecúmenos, a primeira questão é ainda mais direta: “Como te chamas?”

Assim, é pelo nome próprio, como seres únicos e irrepetíveis que somos, que o Pai nos recebeu na sua família; com ternura, desde esse dia, nos faz saber:“Tu és o meu filho muito amado, em ti Eu coloco todo o meu amor”.

O nome, na Bíblia, representa o que somos. A Escritura está cheia de histórias de pessoas reais, com personalidades próprias, decisões livres nas suas circunstâncias concretas, que nos são apresentadas pelo nome. Desde “o princípio”, a vida humana não se esbate num amálgama indefinido e despersonalizante porque, desde “Adão”, Deus conhece, apresenta e faz conhecer cada um pelo nome; em alguns casos, Deus altera ou muda o nome próprio de alguém, designando-o e investindo-o em nova missão. A voz de Deus faz-se ouvir nos corações, precedida pelo vocativo que nos dá o ser e nos interpela…

Somos únicos, mas não existimos sós! Só descobrimos o que somos diante de alguém. Perante Deus, nosso Pai, conhecemos o que verdadeiramente somos… e também o que estamos chamados a ser!                                       

Como a Jesus, também a cada um Deus nos ama. Amou-nos primeiro.(1Jo 4,19) Antes de o merecermos.  E ama-nos por inteiro. Ama-nos como a filhos únicos, como a Jesus. É que “Deus só sabe contar até um”, escrevia, enamorado, o convertido André Frossard em “Deus existe, eu encontrei-O”.

A identidade cristã não é portante um adorno que se usa em determinadas situações e se suspende ou congela em tempos, atividades ou circunstâncias consideradas fora do âmbito religioso ou de cariz “profano” … não há “fora” do que intrinsecamente nos define!

2 – Um Pai que cuida

Deus não se limitou a registar a nossa adoção filial num registo devidamente arquivado, demitindo-se depois da sua função paterna, ausentando-se da nossa vida ou alheando-se da nossa sorte.

Este Deus que nos conhece melhor do que nós mesmos é um Pai que cuida de nós, porque a nossa vida e o nosso destino não Lhe são indiferentes. Cada um dos filhos lhe importa. Muito! Por cada filho, ofereceu o Filho… “Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Deus não nos quer felizes apenas por alguns dias ou durante os poucos anos da nossa vida no mundo…quer-nos felizes, com Ele, para sempre! Por isso nos cuida, alimenta, lava, socorre, cura, escuta e  atende,  com inteira disponibilidade e proximidade. Vamos descobrindo que o Deus que julgávamos viver nas “alturas” inacessíveis, é de facto um Deus que “é mais íntimo a nós do que nós mesmos” (St. Agostinho).

Porque temos Deus por Pai, pertencemos à grande família dos filhos que é a Igreja; no colo desta “Mãe”, formamos um povo em caminho, peregrino e verdadeiramente fraterno, vinculados por laços mais profundos do que os do próprio material genético. Somos ´comunidade de irmãos amados como “filhos únicos”, sendo impossível viver uma ligação meramente individualista com Deus, uma “religião só para mim”: a nossa “casa” é a Igreja - santa na sua natureza e pecadora nos seus membros - porque “Não pode ter a Deus por Pai quem não tiver a Igreja por mãe”, como dizia São Cipriano de Cartago.

Porque bem sabe da limitação das nossas forças, o Pai convida-nos ao melhor alimento: pelas mãos da Igreja, oferece-nos o próprio Corpo e Sangue de Cristo, “Quem come deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 51).

Esse Pai  que repetidas vezes no diz “Filho, tudo o que é meu é teu” (Lc 15,31), quer-nos guiar pelo caminho da vida com a Luz do seu Espírito: "Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!” (Lc 11, 13). Pela Confirmação, o Pai enche a nossa vida com o Espírito e os seus dons que sempre, ao longo da nossa caminhada, nos havemos de lembrar de, confiadamente, pedir ao melhor dos Pais.

 Conhecendo as nossas quedas e as feridas que elas provocam no nosso ser, o Pai providenciou-nos remédio e cura: perdoa-nos “70x7” vezes, ou seja, sempre que arrependidos e desejosos de melhorar nos abeiramos do sacramento da Reconciliação, confessando, com humildade /verdade: “Pai pequei contra Ti” (Lc 15, 21)…E logo ouvimos a música da festa que celebra ao regresso a casa do filho que se tinha afastado, que estava morto e retornou à vida!

Fraca “matemática” a deste nosso Pai que, de cada vez, deixa noventa e nove para buscar uma só ovelha perdida, mas…como isso nos faz sentir intensamente amados quando essa “desgarrada” somos mesmo nós!

Senhor, diante de ti estão todos os meus anseios; nem mesmo o meu suspiro te é oculto.” podemos dizer como o salmista (Sl.38,9), na certeza de que  “Deus, vosso Pai, sabe tudo de que tendes necessidade, antes mesmo que lho peçais” (Mt 6, 8). Mas, essa confiança não nos afasta da oração, antes nos convida a visitar e a demorar-nos com o Pai, chamando por Ele: “Pai nosso”… Sentimos então a ternura do abraço com que sempre nos acolhe… para nos enviar.

3 – Um Pai que envia

Desde o Batismo, o Pai nos lança a “investir” os talentos que nos confiou, a começar no dom da própria vida: chamando-nos pelo nome, entrega-nos a existência como missão.

 A alegria de nos sabermos filhos confronta-nos com o desafio de vivermos como filhos: “sede santos como o vosso Pai é santo”( Mt 5, 38); a ternura do abraço paterno enche-nos de zelo pelos que não conhecem o calor dessa proximidade nem sabem que são amados, desperdiçando a vida à míngua de alimento e longe da casa…

Do Batismo nascem os chamamentos a servir: Matrimónio e Ordem fazem sacramental o “sim” em resposta à vocação. Deus chama, pelo nosso nome, em cada dia, para crescermos no amor, amando, e a dar a vida, servindo…Se fizermos silêncio, se nos pusermos à escuta de Deus, Ele fala-nos e guia-nos, ajudando-nos a viver o Batismo, não como uma data passada e esquecida, mas como tarefa de todos os dias.

Deus dá-nos a mão,  ao longo do arco desta vida, do berço até à passagem final, nunca nos deixando sós; temos uma só vida que se quer encontrar definitivamente com o Pai; marcados com a Santa Unção, possamos então passar para a plenitude da alegria:

alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus”. (Luc 10, 20)

MC