grapewines

Ano Pastoral 2019 / 2020

Como os ramos na videira, todos filhos de Deus

Tema para Outubro

Filhos de Deus somos discípulos missionários

 

A experiência de Deus toca a pessoa no seu íntimo, como sentido radical, transcendente e último da vida. Provoca a conversão e o compromisso. E o próprio Jesus explica que tal atração vem do Pai, no Espírito: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair” (Jo 6,44). Noutro momento, afirma também que ninguém vai ao Pai a não ser por ele (Jo 14,6). E tudo se faz no Espírito. Trata-se duma experiência profundamente trinitária. O encontro com Cristo enche o crente de imensa alegria, entusiasmo e gratidão com o consequente desejo de segui-lo e só depois decorre a necessidade de comunicar aos outros a beleza de tal experiência. Assim, nasce a vocação missionária. Ser cristão é ser discípulo missionário, é fazer o caminho com o Senhor e irradiar a Sua luz.

 Para nos tornarmos discípulos missionários, o primeiro e fundamental passo é o encontro pessoal com Cristo. De facto, o Senhor Jesus não é apenas uma pessoa do passado ou uma doutrina. É Alguém que está vivo e nos ama pessoalmente. Quando O encontramos, a vida torna-se diferente. A partir dessa experiência é que brota em nós a alegria e o desejo de nos aproximarmos mais d’Ele. No encontro, descobrimos a presença invisível de Cristo que nos acompanha e a quem podemos recorrer com confiança. Esse movimento interior relaciona-se duplamente com as estruturas da Igreja. Carece delas para continuar vivo. E, por sua vez, produz transformações nessas estruturas, alimentando a vida interna das comunidades, tornando visível e concreta a missão de Cristo no mundo.

O Conselho Pastoral Diocesano, no seuPlano Diocesano de Pastoral 2019/20,acentua a ideia de regeneração ou de renascimento inerente ao Batismo e ao mundo da fé que com ele se interliga. O Batismo significa e realiza o começo do que é fundamental no cristianismo. Pelo Batismo opera-se em nós um novo nascimento. De facto, já Jesus garantia a Nicodemos que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é espírito”. É através do Batismo que nos introduzimos na família cristã, que abrimos as portas a Deus que nos ama, mas não nos priva da nossa liberdade, e nos inserimos na Igreja… e fazemo-lo pela afirmação da nossa identidade como pessoa: “Que nome dais ao vosso filho?” Ou, no caso de um adulto: “Como te chamas?”. E essa identidade tem direitos e deveres. É que, como afirmou o Papa Francisco numa das suas catequeses semanais (18/04/2018), “o Batismo ilumina a vocação pessoal a viver como cristão que se desenvolverá durante a vida inteira. E comporta uma resposta pessoal, não emprestada, com um «copia e cola»” e, a partir daí, entramos num processo que nunca daremos como acabado…e do qual cada um é responsável.

Como ficou dito, tudo começa com a experiência profunda de encontro pessoal com Jesus Cristo, fonte da verdadeira vida. Daí brota o seguimento, alimentado pela Palavra, pela vida sacramental e pela prática da caridade. Em seguida, nasce o desejo de ser missionário, de partilhar toda essa riqueza descoberta com os outros. E, para tal tarefa, a formação faz-se necessária, observando etapas e cumprindo requisitos básicos. Como refere o Papa Francisco, “o mandamento missionário do Senhor inclui o apelo ao crescimento da fé [e] o primeiro anúncio deve desencadear um caminho de formação e de amadurecimento” (Evangelii Gaudium, 160). O ideal seria mesmo que todos pudessem chegar a dizer e sentir intimamente o conhecido brado de São Paulo: “Já não sou eu que vivo. É Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20). A Fé é a chama que se faz tanto mais viva quanto mais é partilhada, transmitida, para que todos possam conhecer, amar e professar que Jesus Cristo é o Senhor da vida e da história.

E para onde é que Jesus nos manda? - Pergunta feita pelo Papa Francisco numa das homilias da 28ª Jornada Mundial da Juventude - “Não há fronteiras, não há limites: envia-nos para todas as pessoas. O Evangelho é para todos, e não apenas para alguns. Não é apenas para aqueles que parecem a nós mais próximos, mais abertos, mais acolhedores. É para todas as pessoas. Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até às periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor. “A missão de Jesus tornou-se a missão da Igreja e agora nós devemos dar continuidade à sua obra, “até que Ele venha”. Aí está o último desafio do discípulo missionário: uma práxis cristã que transforme a realidade de injustiça em justiça, de ódio em amor, de segregação em comunhão, de discriminação em acolhimento, de morte em vida. A vocação universal à missão, que abrange a totalidade dos discípulos, é que nos sintamos responsáveis pela continuação, no mundo, do projeto libertador de Jesus, do projeto do Reino. Estamos verdadeiramente conscientes disto? Como é que, na prática, anunciamos Jesus? Jesus já chegou, efetivamente, ao nosso local de trabalho, à nossa escola, à nossa paróquia, à nossa comunidade religiosa? De quem é a responsabilidade se Jesus ainda parecer estar ausente de tantos lugares da vida de hoje? Conseguimos dormir tranquilos quando o egoísmo, a injustiça e a escravidão se instalam à nossa volta?

Cada um de nós deve proceder a esta reflexão, encontrando resposta para cada questão e guardando dentro de si que a missão de anunciar o Evangelho não está reservada apenas ao grupo dos Doze, é confiada, realmente, a todos os discípulos para irem até aos confins da terra. É toda a Igreja que é constituída missionária e missionada! Fazer de cada batizado um testemunho da Boa Nova da salvação dada em Jesus. E se os trabalhadores são poucos, é talvez porque os batizados não estão ainda suficientemente conscientes da sua missão. Em Igreja, normalmente, não deveria haver cristãos que se contentam em ser “consumidores espirituais”. Todos são chamados a ser “pedras vivas”. São Tiago recorda-nos: “Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé quando não a põe em prática? A fé seria então capaz de salvá-lo? A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta” (Tg 2,14.17). A fé cristã compromete necessariamente o cristão com a comunidade e com o mundo. O anúncio do “Reino” não se esgota em palavras, mas deve ser essencialmente constituído por gestos concretos… O discípulo missionário tem de mostrar nos seus gestos: o amor, o serviço, o perdão, a doação que ele anuncia em palavras e se isso não acontecer, o seu testemunho é oco, hipócrita, incoerente e não convencerá ninguém.

É preciso não esquecer que compete a todos os batizados a responsabilidade de anunciar e transmitir o Evangelho de Cristo, de forma especial a dimensão da misericórdia do amor de Deus. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não digamos mais que somos “discípulos” e “missionários”, mas sempre que somos “discípulos missionários”.» (Evangelii gaudium, n.º 120)

É a realidade experimentada por São Paulo que, logo após o encontro com Jesus Cristo, se dispôs a anunciá-lo, reconhecido por tamanha graça da sua misericórdia: «Ele nos consola em toda a nossa tribulação, para que também nós possamos consolar aqueles que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação que nós mesmos recebemos de Deus.» (2Cor 1,4)

Então, sigamos o apelo do Papa Francisco de sair pelas “estradas do mundo onde as pessoas vivem: é lá que as podemos, efetiva e afetivamente, alcançar. Entre estas estradas estão também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança. Também graças à rede, pode a mensagem cristã viajar «até aos confins do mundo» (At 1, 8). Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos.”

  Este caminho é, no entanto, um caminho de exigência, pois conduz ao confronto com o pecado, com o egoísmo, com a injustiça, com a opressão. Será que eu, como Paulo, estou disposto a percorrer estas estradas com coragem e sem vacilar? Será que estou preparado para me libertar de uma mentalidade individualista e abraçar um pensamento mais humano, mais fecundo que dignifique a minha passagem por esta terra?

            Como Paulo, cada crente é um enviado a testemunhar o Cristo da cruz – quer dizer, a anunciar a todos os homens que só no amor radical, no amor até às últimas consequências se gera vida e nasce o Homem Novo de olhos e ouvidos sempre atentos a tudo o que o rodeia e disponíveis para verem o mundo como a “Casa Comum” de toda a família humana, nossa família. A escuta da terra e a dos pobres andam sempre juntas… Nem tudo na vida humana se pode comprar ou vender e o anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária, que não é feita por iniciativa pessoal e própria, mas em comunhão com os irmãos. Quais são, verdadeiramente, os nossos títulos de glória: a conta bancária, o estatuto social, o êxito profissional, os “fans” incondicionais que circulam à nossa volta? Ou são os gestos de amor, de doação, de entrega e as feridas recebidas a lutar pela justiça, pela verdade. Procurar conquistar poder económico ou político para depois impor o Evangelho, controlar os mass-media ou utilizar sofisticadas técnicas de marketing para “vender” a proposta do Reino é negar a essência do Evangelho – que é amor, partilha, serviço, vividos na simplicidade, na humildade, no despojamento… tudo o mais é secundário.

Tomemos a Virgem Maria como nosso modelo. Na sua vida, Ela deu «exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens»  (Lumen gentium, 65). Peçamos-lhe que nos ensine a encontrarmo-nos cada dia com Jesus. E quando andarmos distraídos, porque temos muitas coisas para fazer, e o Sacrário ficar abandonado, que Ela nos tome pela mão. Peçamos-lhe isso!

G.P.

 

PARÓQUIA SENHORA DA CONCEIÇÃO, PORTO