grapewines

Ano Pastoral 2019 / 2020

Como os ramos na videira, todos filhos de Deus

Tema para Fevereiro

Oração e atenção aos outros.
Habitados por Deus
para que outros se deixem habitar

 

Pelo batismo, tornamo-nos “habitação de Deus”:
- “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”. (1Co 3,16)
- “É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito”. (Ef 2,22)

Este tornar-se habitação, casa, morada, lugar de permanência… é uma graça a alimentar e uma responsabilidade para que outros se deixem habitar

Ser habitação de Deus: uma graça a alimentar na oração
Jesus diz-nos: Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós (Jo 15,4). Há uma reciprocidade: Ele está em mim, eu estou nEle; Eu estou nEle, Ele está em mim. Isto implica viver permanentemente ligado: Ele a mim, eu a Ele.

É possível que na minha vida ser batizado/a, ir à igreja tenha mais a ver com o cumprimento de algumas práticas e menos com esta relação/ligação pessoal com Jesus.

É possível, também, que eu, habitante deste mundo de redes sociais, viva conectado/a, on line com todos e com tudo quanto há, menos comigo próprio/a. E posso acabar por viver levado/a na torrente dos acontecimentos, das solicitações constantes do dia a dia, à superfície da vida…

Viver ligado/a ao mais profundo de mim mesmo/a onde Jesus habita e me faz ser sua habitação exige:

- Parar. Parar mesmo. Deixar os afazeres, o turbilhão da vida, o ritmo desenfreado. Dar-me um tempo diário, semanal…

- Fazer silêncio. Não basta parar, é preciso desligar todas as outras conexões, todos os ruídos, silenciar todas as vozes que me distraem, me puxam para fora, descer à minha interioridade mais profunda, lá onde está Deus e eu…

- Escutar. Escutar é mais do que ouvir. É colocar o ouvido atento para perceber. Escutar o que se passa dentro de mim, como reajo aos acontecimentos, como estou a responder… Escutar os outros, o que me dizem e o que me querem dizer, escutar Deus que me fala nos acontecimentos, nas pessoas, na sua Palavra…

- Estar-Permanecer. Estar gratuitamente com Jesus. Escutar a sua Palavra. Deixar que Ela entre no meu coração e confronte a minha vida, os meus critérios, seja a fonte e o alimento do meu agir.

No episódio de Marta e de Maria, narrado no evangelho de Lucas (10,38-42), Jesus mostra-nos como pode ser estéril o serviço sempre atarefado, desligado da fonte, sem tempo para a escuta da sua Palavra – atitude de Marta. E louva a atitude de Maria, não porque não seja importante o serviço aos outros, mas porque o verdadeiro serviço nasce e se alimenta da escuta e da aprendizagem da sua Palavra. E Maria soube estabelecer as prioridades justas.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho, em que desafia fortemente a Igreja a ser uma Igreja “em saída”, começa por dizer, no nº 3: “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia-a-dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito”.

Ser habitação de Deus: uma responsabilidade para que outros se deixem habitar

A graça do batismo que nos torna habitação de Deus faz-nos membros de um corpo, ramos da videira, comunhão com todos os que vivem do mesmo Espírito. Não é uma graça isolada, só para mim, para eu viver “a minha fé”…

Este viver permanentemente ligado/a a Jesus liga-me aos outros, torna-me responsável por todos os que vivem a mesma relação, habitam a mesma casa, são amados por Deus, estão necessitados de auxílio.

E é esta relação com Jesus que me coloca num dinamismo missionário de saída, de missão, de ir ao encontro do outro.

A parábola do samaritano, contada por Jesus no evangelho de Lucas (10,29-37) para responder à pergunta do doutor da Lei acerca de quem seria o seu próximo, interpela-nos fortemente sobre a prática duma religião, uma possível relação com Deus que não se expressa em cuidado com o próximo. Com efeito, o sacerdote e o levita, ao verem o homem caído, meio morto, passam adiante…

É um samaritano que, encontrando-o no seu caminho

- se aproxima dele

- para e olha para ele

- enche-se de compaixão

- liga-lhe as feridas

- deita azeite e vinho nas feridas

- coloca-o sobre a sua própria montada

- leva-o a uma estalagem

- providencia para que cuidem dele…

Este cuidado é carregado de gestos simples e concretos de proximidade e compaixão, que curam a pessoa toda… Não será por acaso que as feridas são curadas com azeite e vinho (alusão ao batismo
à eucaristia?) e que o homem é levado à estalagem (a Igreja – tenda de campanha onde se pode ser cuidado e curado?)

O parar para fortalecer a minha ligação a Jesus faz-me parar junto dos outros?
Ao parar com Jesus posso perguntar-me:
- hoje passei ao largo de alguém ferido, ou com fome, ou na solidão, ou desconhecendo a graça do batismo que o habita?
- como me senti?
- como cuidei das suas feridas
- como procurei levá-lo comigo à estalagem-Igreja que acolhe, faz encontrar com outros, cura com azeite e vinho, com os sacramentos, com a aprendizagem do que é ser próximo, da missão…

Isto é a missão de cada cristão vivida como caminho de santidade, como nos diz o Papa Francisco na Exortação Alegrai-vos e exultai, nº 19: “Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque «esta é, na verdade, a vontade de Deus: a [nossa] santificação» (1 Ts 4, 3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho”.

Ir Lúcia