ANO PASTORAL
2017 | 2018

 

“Movidos
pelo amor de Deus crescemos
na comunhão e na caridade”

Reflexão para o verão

 

Ao serviço da Casa Comum:
Ecologia Humana e Ecologia Ambiental

A encíclica do Papa Francisco “ Laudato si” abriu um alargado e prolongado debate que envolve o social, o religioso e a própria Bíblia. A sua estimulante proposta não tem só alcance político mas também ético e espiritual, qual ponte entre a contemplação e a acção. Mostra que a espiritualidade projecta luz na solução dos problemas do ambiente, ligando a natureza com a comunidade humana. É uma “ecologia integral”.
Poluição, resíduos, alterações climáticas, escassez de água e perda de biodiversidade foram alguns dos temas abordados pelo Papa Francisco nesta encíclica sobre o cuidado da casa comum. Com base em argumentos científicos, lança um alerta para as questões ambientais e faz um apelo à mudança de estilos de vida, estabelecendo uma "relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta".

A pergunta-chave é esta: como se deve agir, a nível político e económico, ético e espiritual, para corrigir os desvios de um desenvolvimento que não ameaça apenas prejudicar a Terra, mas também empobrecer e degradar o Homem que a habita?

A sua advertência e o seu apelo são dirigidos às responsabilidades individuais e coletivas no uso racional dos recursos naturais, que a todos pertencem e que devem, portanto, ser distribuídos e utilizados em proveito de todos. É este o humanismo que Francisco tem vindo a traçar com toda a lucidez como projeto de civilização para a casa comum, apelando ao empenho e contributo de cada um, para que o mesmo se torne possível.

«Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?» e prossegue: «Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária», e isso conduz a interrogarmo-nos sobre o sentido da existência e sobre os valores que estão na base da vida social: «Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra?»: «Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, – diz o Pontífice – não creio que as nossas preocupações ecológicas possam surtir efeitos importantes».

“As alterações climáticas são um problema global, com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, e constituem o principal desafio da humanidade”, acrescenta a encíclica, na mesma linha do que cientistas e políticos têm vindo a dizer nas últimas duas décadas.

Ao longo do texto, o papa convida a ouvir os gemidos da criação, exortando todos a uma “conversão ecológica”, a “mudar de rumo”, assumindo a responsabilidade de um compromisso para o “cuidado da casa comum”.

«O grau de progresso de uma civilização mede-se precisamente pela capacidade de salvaguardar a vida, sobretudo nas suas fases mais frágeis, mais do que pela difusão de instrumentos tecnológicos.» 

Francisco lembra que as questões ambientais já tinham sido abordadas por João Paulo II e Bento XVI. Contudo, pela primeira vez, há uma encíclica inteiramente dedicada ao tema. "A exposição aos poluentes atmosféricos produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde, particularmente dos mais pobres, e provocam milhões de mortes prematuras", destaca. A tecnologia "que, ligada à finança, pretende ser a única solução dos problemas, é incapaz de ver o mistério das múltiplas relações que existem entre as coisas e, por isso, às vezes resolve um problema, criando outros". A terra, escreve Francisco, "parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo".

No modelo atual de organização política e social, centrado no crescimento económico e no domínio do capital financeiro, assente em estruturas de poder e influência global, abandonamos os mais pobres e vulneráveis, e destruímos o meio ambiente, servindo-nos dele como recurso de uso exclusivo, como se fosse propriedade privada. As estratégias que têm sido adotadas não estão a conduzir-nos ao futuro que queremos e desejamos e os responsáveis não podem ignorar a ineficácia de medidas já postas em prática e muito menos abandonar acordos resultantes de negociações internacionais para um tratado climático, votando ao fracasso os esforços já empreendidos.

Apela às potências mundiais para salvarem o planeta, considerando que o consumismo ameaça destruir a Terra e denunciando o egoísmo económico e social das nações mais ricas. "Hoje, tudo o que é frágil, como o ambiente, está indefeso em relação aos interesses do mercado divinizado, transformado em regra absoluta."

Francisco defende que os países ricos devem sacrificar parte do seu crescimento e assim liberar recursos necessários aos países mais pobres. "Chegou a hora de aceitar crescer menos em algumas partes do mundo, disponibilizando recursos para outras partes poderem crescer de forma saudável”.

O desenvolvimento sustentável não é possível sem equidade social, no modo de ser pessoa em relação com os outros e sem integração protetora do meio ambiente. O papa Francisco vem dizendo que a Terra tem sido maltratada e saqueada. “Esta nossa ‘casa’ está a ser arruinada e isso prejudica a todos, especialmente os mais pobres.” Portanto, o seu apelo é à responsabilidade, com base na tarefa que Deus deu ao ser humano na criação: ‘cultivar e preservar’ o ‘jardim’ em que ele o colocou.

“O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na nossa casa comum.” 

Nestas palavras do Papa Francisco há uma convicção que nos anima, há um grito de esperança que nos toca a todos: As coisas podem mudar! Ainda estamos a tempo de alterar a ordem e o lugar das coisas dentro da nossa casa, mas não podemos ficar apenas pela fachada… é preciso olhar para o seu interior e identificar o que é urgente alterar, identificar as causas reais para podermos agir e assim voltar a unir toda a família humana, todos os que habitam a mesma casa, em torno do objetivo fundamental: o Bem Comum

É preciso que cada um se deixe entrar no mais íntimo da sua casa e possa compreender que, sendo simplesmente uma pequena partícula que habita este universo, não é apenas habitante desta casa comum, que dela se serve como sua propriedade, mas é também, e em primeiro lugar, parte de “igual natureza”.  É urgente desenvolver e implementar novas maneiras de estar, fazer e agir. Cuidar da nossa casa exige um desenvolvimento, pessoal e social, que seja também espiritualmente pleno.

Precisamos de desenvolver competências críticas para uma ecoeducação, assumindo um compromisso solidário de colaboração global, mas precisamos também de ganhar consciência de que pertencemos à mesma natureza que nos acolhe e abriga, e não o contrário!

Respeito, Responsabilidade e Relação são os três “R” que ajudam a atuar de forma conjunta diante dos imperativos mais essenciais de nossa convivência, ideia revelada pelo Papa Francisco na mensagem por ocasião do congresso internacional “laudato Si’ e Grandes Cidades”:

“O respeito é a atitude fundamental que o homem tem de ter com a criação” para que as gerações futuras possam seguir admirando-a e desfrutando-a.

Já a responsabilidade  constitui uma de nossas tarefas primordiais, terá de ser ativa para o bem de todos. “Não podemos ficar de braços cruzados quando constatamos uma grave diminuição da qualidade do ar ou o aumento da produção de resíduos que não são adequadamente tratados.” É lamentável a indiferença e a passividade diante de tantas tragédias e necessidades dos nossos irmãos e irmãs.

O terceiro “R”, a relação, ou melhor, a falta de relação, não é uma característica visível somente nas grandes cidades multiculturais, mas acomete também a zona rural. O fluxo constante de pessoas faz com que as sociedades contemporâneas sejam cada vez mais fechadas e desconfiadas. “A falta de raízes e o isolamento de algumas pessoas são formas de pobreza, que podem degenerar em guetos e originar violência e injustiça. Contudo, o homem está chamado a amar e ser amado, estabelecendo vínculos de pertença e laços de unidade entre todos os seus semelhantes”.

As sociedades têm de trabalhar conjuntamente para criar relações humanas mais quentes, “que derrubem os muros que isolam e marginalizam”. Francisco pede o engajamento de grupos, escolas, paróquias, “que sejam capazes de construir com a sua presença uma rede de comunhão e de pertença, para favorecer uma melhor convivência e conseguir superar tantas dificuldades”.

O Papa Francisco quer sensibilizar os crentes e todos os homens de boa vontade sobre as dramáticas condições atuais do planeta; um apelo para que a criação volte a ser uma bela casa e uma família fraternal capaz de gerar um futuro de justiça e de paz para todos. Por si, a obra de Deus já é sustentável! Se compreendermos que somos natureza de Deus, como aquela em que Deus nos colocou, então as coisas podem mudar porque a humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na nossa casa comum. Se estivermos atentos e escutarmos os sinais dos tempos, deste nosso tempo, e se quisermos, converteremos as nossas preocupações em oportunidades de Reconciliação com a Criação.

“Deus, que nos chama a uma generosa entrega e a oferecer-Lhe tudo, também nos dá as forças e a luz de que necessitamos para prosseguir. No coração deste mundo, permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!”

Assim, nós somos a nossa casa. Somos criaturas de Deus, a quem Ele responsabiliza por toda a Sua obra.

Deus Onipotente,
que estais presente em todo o universo
e na mais pequenina das vossas criaturas,
Vós que envolveis com a vossa ternura
tudo o que existe,
derramai em nós a força do vosso amor
para cuidarmos da vida e da beleza.

G.P.