ANO PASTORAL
2017 | 2018

 

“Movidos
pelo amor de Deus crescemos
na comunhão e na caridade”

Reflexão para janeiro fevereiro

A fraternidade
na comunidade paroquial

 

“Vós todos sois irmãos.”
(Mt 23.8)

Fraternidade é palavra antiga, desgastada pelas modas e pelos usos… designa-se com ela apenas a relação de parentesco ditada pelo sangue, um conceito filosófico, um famoso lema revolucionário ou algo mais do que mero estribilho de canção?
Longe de ser um ideal feito de bons sentimentos, ou uma utopia sem fundamento ontológico, a fraternidade é uma dimensão fundacional e estruturante do ser cristão e uma atitude exigente no viver a partir da fé em Cristo, nosso irmão.

 

BATISMO: ADOÇÃO E FRATERNIDADE

Pela Encarnação, o Filho de Deus quis fazer-se verdadeiramente homem e irmão dos homens, assumindo a nossa natureza; pela Sua morte e ressurreição reconciliou-nos com Deus e salvou-nos da morte eterna, a que nos tínhamos condenado em virtude da nossa recusa ao Amor.
Pelos sacramentos da iniciação cristã, o Espírito Santo comunica-nos a adoção divina e a fraternidade em Cristo: passamos a ser “filhos no Filho”, o que nos torna realmente irmãos.
Quando S. Paulo refere “somos filhos de Deus, então, também somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, (Rom 8, 17), alude a uma lei romana existente no sec.I que permitia adotar alguém como irmão; em virtude desse ato, o adotado torna-se herdeiro dos bens do pai de quem o adota. Assim se manifesta a mediação de Cristo e o carácter central da fraternidade: é porque Cristo nos fez seus irmãos, quer ao nível da Encarnação quer ao do nosso batismo, que nos tornamos filhos do Seu Pai e podemos rezar dizendo “Pai nosso”.

 

FRATERNIDADE É NOME PRÓPRIO DA IGREJA

A fraternidade (adelphotès) está no coração da fé cristã e foi, mesmo desde os inícios, o nome próprio da Igreja (ekklesía); designava as comunidades cristãs, ou seja, as pessoas que se descobriam e reuniam como irmãs em Cristo Jesus.
É nesses termos precisamente que o próprio S. Pedro dirige o seu apelo à firmeza na fé à “Comunidade dos irmãos” (1Ped 5, 9).
A pertença a Cristo leva os cristãos a ultrapassar os limites da sua individualidade e a ultrapassar, e mesmo abolir, as distinções sociais.
            A comunidade cristã é não só constituída pelos irmãos de Cristo - e irmãos uns dos outros em Cristo - mas também é nela e por ela que vão nascer, na fonte batismal, novos irmãos de e em Cristo.

O “SACRAMENTO” DO IRMÃO

Saber-se membro da Igreja-Fraternidade implica um novo tipo de atitude e comportamento: o amor fraternal (philadelphia), qualquer que seja o nosso estatuto social ou eclesial.
Jesus instaurou um novo tipo de fraternidade que não se baseia nos laços do sangue mas no imperativo do amor; por isso, e tal como Ele fez, a fraternidade pode exigir o dom da própria vida pelo outro.
A fasquia não podia ser mais alta: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros”. (João 13, 34-35).
Cada ser humano amado por Deus é um sinal sacramental do próprio Cristo: 'Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!' (Mt 25, 40)
Nesta linha, os Padres da Igreja falaram do “sacramento do irmão” : no outro, o próprio Jesus faz-se presente; servindo o irmão seremos Seus imitadores, pois Ele veio para “servir”.
Eucaristia e serviço do irmão implicam-se mutuamente: recebendo Jesus que deu a vida por nós aprendemos a gastar a nossa, fazendo-a dom aos irmãos.
Conta-se que Pascal, próximo da morte, pediu a comunhão eucarística; não sendo possível recebê-la por dificuldades de deglutição, pediu que lhe trouxessem um pobre para junto do leito, afirmando que já que não podia comungar a Cabeça, queria comungar com um membro do Seu corpo…

VIVER A FRATERNIDADE EM COMUNIDADE PAROQUIAL

A fraternidade estabelece laços profundos que não são solúveis num sentimentalismo vago pelo género humano, mas que exige compromisso com gente concreta com quem fazemos caminho de vida.
A comunidade paroquial é lugar específico dessa vivência com aqueles que aí recebemos, de Cristo, como irmãos: podem não ser os da nossa família de sangue, nem os bons amigos do peito, nem o grupo simpático do nosso café, clube ou partido…Na paróquia, foi “o amor de Cristo [que] nos uniu”!
S. Paulo pedia às comunidades de então o que deve ser a norma também, hoje, para nós: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”. (Fil 2, 5)
 Viver como irmãos, na nossa comunidade, à maneira de Jesus implica aproximar-se, acolher, conhecer, respeitar-se nas diferenças, amar servindo… Experimentar a fraternidade assim, pode ser um ensaio do Céu!
À luz da descrição dos Atos dos Apóstolos (Atos 4, 32-35) da primeira comunidade dos irmãos em Cristo, que tinham ”um só coração e uma só alma”, podemos avaliar o nosso grau de vivência da fraternidade paroquial, perguntando-nos:
De quantas pessoas conhecemos o nome, mesmo quando nos sentamos anos a fio no mesmo banco da igreja? A quantas cumprimentamos com afeição quando encontramos noutros espaços da cidade? Somos capazes de não fazer acepção de pessoas, mas de a todos acolher com amabilidade e respeito, seja qual for o seu estatuto e independentemente do grau de simpatia que espontaneamente possamos por elas sentir? Temos “tempo” e disponibilidade para ouvir? Conseguimos evitar o falatório sobre a vida alheia e a divulgação das fraquezas do próximo? Interessamo-nos realmente por promover o sucesso do outro? Alegramo-nos com as suas alegrias e sofremos com as suas dores? Assumimos serviços na paróquia para servir a comunidade ou buscamos nela apenas ser servidos? Contribuímos, consoante a nossa disponibilidade, (avaliada na presença de Deus!), com os meios materiais necessários para suportar as despesas da paróquia, sentindo-a “nossa”? Somos capazes de pedir fraternalmente o perdão, quando magoámos alguém? Esforçamo-nos sinceramente por perdoar e compreender? Vivemos em “espírito de capelinha” com o nosso grupo paroquial, não buscando conhecer e fazer “família” com os outros membros da comunidade? Desejamos e buscamos sinceramente o bem maior de cada um, ajudando-o a aproximar-se mais de Deus? Somos instrumento de paz entre os que estão zangados ou desavindos? Procuramos corrigir com amor fraterno, com delicadeza e discrição? Sabemos conviver com a diferença, respeitando as sensibilidades que não coincidem com a nossa? Não escondemos o nosso pensamento quando devemos defender a verdade ou contribuir com a nossa opinião, em nome de consensos fáceis ou para não perder simpatias? Sabemos agradecer? Rezamos, todos os dias, ao nosso Pai pelos irmãos da nossa comunidade, particularmente pelos que sabemos em maior necessidade?
Neste início do ano de 2018, tempo de novos propósitos e decisões, qual destes aspetos, em concreto, vou escolher para procurar viver melhor a Fraternidade na Paróquia Senhora da Conceição?

DA ALEGRIA DA FRATERNIDADE
À
FRATERNIDADE EM MISSÃO

A fraternidade não pode encerar-se numa Igreja de portas fechadas: a fraternidade deve viver-se não só entre Igrejas locais (que se sabem Igrejas-irmãs), mas para além delas, no desejo de fazer experimentar a todos os homens a alegria de viver como irmãos.
A nossa missão como cristãos é de dizer aos outros que, graças ao Seu Espírito de Amor, Cristo nos dá uma capacidade de fraternidade maior. A perspectiva final com que sonhamos é a de “recapitular o mundo inteiro em Cristo” (Efésios1, 10), reunindo todos os homens numa grande família, a família de Deus. Então, nada faltará à nossa felicidade, quando Deus for «tudo em todos» (1Cor 15,28).
 Olhando para a nossa comunidade paroquial, pode o mundo espantar-se dizendo, de novo e com verdade, “Vede como eles se amam”?
A Igreja será “sacramento de salvação”, tanto quanto for sinal visível de fraternidade e fermento de fraternidade entre os homens.
MC

PARÓQUIA SENHORA DA CONCEIÇÃO, PORTO