Ano Pastoral 2015 | 2016

“A Alegria do Evangelho testemunhada pela Misericórdia”

 

“A Alegria, a Esperança e a Misericórdia
movem a Vida”

Verão 2016

 

A pouco mais de meio caminho neste ano dedicado à Misericórdia, começo esta reflexão referindo aquele que, segundo o Papa Francisco, é o objectivo último deste ano jubilar: “colocar no centro das atenções o Deus misericordioso, que convida todos a voltar-se a Ele”.

Se, pelo menos no capítulo teórico, nos é familiar este Deus misericordioso, já o é menos a implicação que, para cada um de nós, decorre deste “voltar-se a Ele”, na medida em que nos interpela, não apenas a olhar “para Ele”, mas acima de tudo a estar-se, a fazer-se, a ser-se próximo d’Ele, nos “próximos”, como na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 29-37), vivendo e levando assim a misericórdia aos diversos ambientes sociais, qual força motriz que anima e que tem a capacidade de transformar o mundo.

Não surpreende por isso que, para o Papa Francisco, a misericórdia não seja uma palavra abstrata, mas um rosto para reconhecer, contemplar e servir. Assim o manifesta na Bula da Misericórdia com que convoca o Jubileu: “Jesus de Nazaré com a Sua palavra, com os seus gestos e com toda a Sua pessoa revela a misericórdia de Deus. N’Ele não há nada em que falte compaixão”. E acrescenta: “a Sua Pessoa não é outra coisa senão Amor, um amor que se doa e oferece gratuitamente. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, para com as pessoas pobres, excluídas, doentes e em sofrimento, levam consigo o distintivo da misericórdia”.

A forma como cada um de nós se deixar tocar, implicar e comprometer pela misericórdia de Deus, na pessoa do Seu filho Jesus Cristo, assenta e muito, a meu ver, em duas posturas que se implicam mutuamente: a primeira, e talvez mais pungente, é a de na plenitude do nosso querer e ser racional e emocional, identificarmos Jesus Cristo nos rostos dos nossos irmãos, em especial os mais frágeis, os débeis, seja qual for o motivo da sua fragilidade ou debilidade - os “misere”, como força capaz de nos fazer abandonar a nossa (in)diferença cómoda de um qualquer bem-estar social e de passarmos à acção – individual e comunitária, para tudo fazermos no sentido de os tornar menos frágeis, menos débeis, curvando o nosso coração, colocando o nosso corpo por baixo da cruz que esmaga os seus corpos, como esmagou o d’Ele a caminho do Gólgota. O segundo consiste em aceitar o desafio de sermos, nós próprios, rostos de Jesus Cristo para os demais, que não O conhecem ou conhecendo-O, não O reconhecem naqueles de nós, que n’Ele acreditamos mas, tantas vezes, o desfiguramos com o nosso egoísmo, hedonismo e relativismo. O desafio dessa missão sem (pré)condições, onde e quando for preciso, sem (re)conhecimentos vãos, apenas e só em prol de um bem maior, quer em palavras quer em actos, mas sobretudo em obras (Tg 2, 14-26), como as primeiras comunidades cristãs que foram testemunho da sua fé, na medida e pela medida do seu amor - “vede como se amam” (Act 4, 32).

Reconhecermos Jesus Cristo nos irmãos e sermos nós próprios rostos de Jesus Cristo implica, antes de mais, que cada um se decida a “encher-se” de Cristo! Este “encher” ou deixar-se habitar por Cristo, pressupõe a oração – fonte de intimidade n’Ele e com Ele junto do Pai, a escuta orante da Sua palavra, a celebração dos sacramentos, em especial o da Eucaristia (“Eram assíduos à fracção do pão”) e a acçãodiária, concreta e prática das boas obras. Deste modo, também nós poderemos dizer como S. Paulo “já não sou eu que vive, mas Cristo que vive em mim”, esvaziando-nos progressivamente de nós próprios e aceitando crescentemente, como normativa do nosso comportamento cristão, a cintura cingida com a tolha do lava-pés, (pre)dispondo-nos a servi-Lo no próximo, na medida e pela medida em que formos capazes de sermos próximos.

Na certeza de que, neste propósito, nunca estaremos sós - “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20) - e que, só cheios de Jesus Cristo e do seu Espirito Santo, seremos capazes de O reconhecer e de O testemunhar; proponho-me agora explicitar o significado da “Alegria, a Esperança e a Misericórdia que movem a vida”, título desta reflexão.

 Por vezes ouve-se, ainda que não com a frequência devida e merecida, que o cristianismo ou que que os cristãos são (ou deveriam ser) pessoas alegres, possuidoras de uma alegria profunda no sentido mais intimo do termo (Sentimento de grande contentamento, que geralmente se manifesta por sinais exteriores. Sinónimo de Felicidade, Gáudio, Jubilo, Regozijo ) (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/alegri).

 E de onde nos vem esta alegria? A resposta sendo simples, nem sempre se nos apresenta clara. Para mim, esta alegria manifesta-se sempre e quando sentimos estar a segui-Lo, estarmos a fazer a Sua vontade, estarmos a percorrer o Seu caminho, pondo em prática - em cada dia das nossas vidas - o mandamento novo - “que vos ameis uns aos outros” (Jo 13, 34) em permanente entrega e conversão.

 Essa alegria é pois um bem-estar interior, que, inevitavelmente, se exterioriza numa atitude de acolhimento e de proximidade com os outros. Esta alegria, assente no mandamento do amor, molda ou deverá moldar a nossa personalidade pois é “ paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Cor 13:4-7).

 Ora esta alegria é ela própria geradora de esperança, “(…) uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho. “ (in Spe Salvi, Papa bento VXI, 2007). Uma esperança fundada na certeza de que “O Senhor é meu pastor, nada me falta [...] Mesmo que atravesse vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo” (Sal 23[22], 1.4).

 Esperança fundada no perdão, um perdão, que devolve à vida, que restitui a vida de quem estava perdido e regressa à vida, que preserva a dignidade de filho(s) e nos convida a participar na festa, no banquete do Céu, nas núpcias do cordeiro, prefigurado pela festa que o Pai mandou preparar para celebrar o regresso do seu filho muito amado, que não exclui ninguém, nem mesmo o filho mais velho, que se recusa a entrar em casa, como se expressa na parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32).

 Uma esperança que nos anima a seguir, a levantar-nos sempre a cada vez que caímos, a olhar em frente, seguros de que Ele sempre se compadece de nós, sempre nos dá a mão e não nos deixa “afogar” - como o fez com Pedro no mar da Galileia (Mt 14, 14) - que sempre se comove connosco, que não nos condena - condenando tão-somente os nossos pecados - “Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 11).

 A alegria e esperança, que advém da misericórdia de Deus para connosco, da prática do amor e do perdão, não podem senão levar-nos à misericórdia para com os outros - “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste ver-me.” (Mt 25, 35-36) - ganhando a vida, na justa medida em que a perdemos n’Ele e por Ele nos outros, mereceremos ouvir “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25, 34).

Na certeza que a alegria, a esperança e a misericórdia recebidas, crescem e multiplicam na medida e à medida que se dão, que se partilham, que nos (e)levam a ser, seres de proximidade, num amar sem limites, “[…] para alcançá-Lo, visto que já fui alcançado por Cristo Jesus” (Fl 3, 8-14) movem a Vida n’Ele, com Ele e por Ele.

 

 J. Elias

 Nota: Por opção texto escrito fora do acordo ortográfico.