Ano Pastoral 2015 | 2016

“A Alegria do Evangelho testemunhada pela Misericórdia”

 

A misericórdia leva à justiça
e à construção do bem comum

Junho 2016

Três conceitos e outras tantas formas de estar na vida, do cristão, que o deve levar a uma reflexão séria, profunda e a uma vida em consonância com o que Deus espera de cada um daqueles que se afirmam como tal, se não de todo o homem de boa vontade.

Vejamos o significado de cada um deles.

Misericórdia : sentimento despertado no sujeito pelas dificuldades, desgraças de terceiros, isto é ter capacidade de sentir aquilo que o outro sente em presença das dificuldades.

Conceder misericórdia significa perdoar por um ato de bondade, a quem não merece o perdão.

Justiça : neste contexto, entender-se-á por ser dado a cada um aquilo que lhe é devido. Entender-se-á, também por justiça ao referirmo-nos a uma ordem jurídica a partir da qual se aplica a lei. Interessar-nos-á a primeira situação.

Bem comum : os benefícios que podem ser compartilhados por várias pessoas, pertencentes  a um determinado grupo ou comunidade

“Essencialmente, o bem comum, entende-se como aquele conjunto de condições externas necessárias para que o cidadão possa desenvolver-se em sociedade segundo as suas aspirações materiais, culturais e religiosas” (Velcb)

 O lema da vida do cristão é aquele que Jesus Cristo nos transmitiu “Sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito”. Na sua perfeição Ele é Misericordioso, Justo e quer o nosso bem, quer pessoal, quer o das comunidades em que cada um está inserido.

Ser misericordioso será compadecer-se pelo outro, estar preocupado pelo e com o outro, sentir as dificuldades e os anseios do outro, mas esta atitude de atenção não pode ficar-se pela atitude de se ser mero espectador, tem de ser actuante, interventiva.

Mas a misericórdia vive-se, pratica-se pelas obras que a concretizam, quer as espirituais ( dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo, rogar a Deus pelos vivos e defuntos) quer as corporais (dar de comer a quem tem fome, e de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos)

 Poderemos afirmar que sempre queremos ser objecto das obras de misericórdia se delas necessitarmos. Mas diz-nos a Sagrada Escritura que “Tudo aquilo, pois, que quereis que os outros vos façam a vós fazei-o também vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas.” Mt 7 12

Pratica-se a justiça para com o próximo se se contribui para que ele tenha efetivamente aquilo a que tem direito, e o primeiro direito é o direito à vida – a nascer e a morrer de morte natural e com dignidade. E para viver necessita de comer, de se vestir, sem esquecer o direito à habitação, e em particular o de ser acolhido quando peregrino, (e cada um de nós é peregrino nesta caminhada ao encontro do Pai), na doença todo o homem, ou mulher, em qualquer fase da vida tem direito à saúde. Somos misericordiosos se nos preocupamos com a sua saúde, se cuidamos dele, se o visitamos para que não esteja só. O acompanhamento daqueles  que estão “sós” é também uma obra de misericórdia, pois também lhes é devida a sua integração na comunidade a que pertencem. E nestes estarão incluídos os que tendo errado se encontram privados da liberdade. Necessitam de apoio para recuperarem do mal pelo qual se encontram nessa situação ajudando-os na expiação das suas faltas levando-lhes o conforto do perdão que Deus sempre concede a quem sinceramente se arrepende do mal praticado, ajudando-os à sua futura reintegração na sociedade da qual foram retirados.

Numa passagem da Sagrada Escritura diz-se: “Não sabeis que sois templo do Espirito Santo?”. E após a morte, o corpo de cada um de nós tem direito a ser devolvido ao lugar donde veio – à terra.

Ao falar-se em direito não se está a falar em termos juridicos, aqueles que estão salvaguardos pelas leis, mas do direito natural do qual deve decorrer toda a legislação – esta tem de reconhecer aquele.

Quem não precisa de um bom apoio na tomada de decisões, mesmo para aquelas de somenos importância?

Todos temos o direito de ser ensinados (e a liberdade de ensinar, e de escolha de que tipo de ensino queremos, para nós e para aqueles por quem somos responsáveis).

Se falhamos precisamos de corrigir o erro, Aqui também precisamos de ajuda, e de saber prestar ajuda a quem dela precisa. A correção fraterna será, também, uma obra de misericórdia, e aqui associado ao arrependimento e ao perdão

E esta necessidade pode decorrer de situações que nos levem ao desanimo, à tristeza, pois se vamos caminhando para a santidade, podemos dizer com o aforismo “um santo triste é um triste santo”.

Quantas vezes ao longo da nossa vida rezamos a oração que o Senhor nos ensinou? E de todas as vezes afirmamos “perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Também é obra de misericórdia o perdão, que afirmamos dar a quem nos ofendeu tendo como retribuição o perdão das nossas faltas. 

“A misericórdia autêntica é, por assim dizer, a fonte mais profunda da justiça.”... “A misericórdia autenticamente cristã é ainda, em certo sentido, a mais perfeita encarnação da «igualdade» entre os homens e, por conseguinte, também a encarnação mais perfeita da justiça , na medida em que esta, no seu campo, tem em vista o mesmo resultado”...”A misericórdia torna-se assim, elemento indispensável para dar forma às relações mútuas entre os homens em espirito de mais profundo respeito por aquilo que é humano e pela fraternidade reciproca” (Dives inmisericordia JPII)

Se a misericórdia leva à justiça, isto é, leva a que cada um tenha aquilo a que tem direito como ser humano, também leva a que cada um seja possuidor dos bens a que tem direito, e que são bens comuns aos restantes elementos da comunidade que cada um integra, a comunidade familiar, profissional, nacional, etc, e que conduz a um estado de perfeição, a caminho, como se anotou atrás do “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”

A misericórdia leva ao bem comum, em particular ao bem comum religioso se nos preocupamos com os membros da nossa comunidade pela sua felicidade, pela sua fé, pelo crescimento dessa fé, pelo seu bem estar, se nos preocupamos com a satisfação das necessidades primárias dos mais necessitados, contribuindo para que tenham aquilo a que têm direito, e com a paz que deve reinar entre todos.

 

Virgílio Seisdedos