Ano Pastoral 2015 | 2016

“A Alegria do Evangelho testemunhada pela Misericórdia”

 

MARIA LEVA-NOS À FONTE DA MISERICÓRDIA
Abril/Maio

“O pensamento volta-se agora para a Mãe da Misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne.” (Misericordiae Vultus,24).

Entre 16 de Abril de 2016 e o dia 1 de Maio, a Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima vem visitar a nossa Diocese do Porto, passando alguns dias na nossa cidade; durante esse tempo, estará duas vezes na nossa igreja, ficando mesmo toda uma noite connosco! “É um belo símbolo da Mãe da Ternura e da Misericórdia que vai visitar os filhos onde eles vivem e trabalham, para lhes levar a sua mensagem e para lhes fazer sentir a sua proximidade e o seu conforto!” (D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima). Este acontecimento, em pleno Ano Jubilar da Misericórdia, constitui uma oportunidade renovada para refletirmos sobre o papel de Maria na vida de cada um de nós.
O cristão é aquele que tem o centro da sua vida em Cristo, único mediador e Salvador. Maria, porém, é a “Porta” santa pela qual Jesus quis vir até nós na História e a Mãe que nos ofereceu na hora suprema da Cruz para nos conduzir a uma maior intimidade com Ele. Por isso, nós não adoramos Maria (nem as suas imagens!), mas veneramo-la, reconhecemos nela a mais bela criação de Deus, a pessoa que melhor viveu (e vive!) o projeto que o Senhor sonhou para ela, a “honra da humanidade”, a discípula mais fiel do seu próprio filho, Jesus! Como diz o cardeal W. Kasper “Maria é, de todas as criaturas, a que corporiza o evangelho da misericórdia divina da forma mais pura e mais bela”
Não há como escamotear a figura de Maria da história da Salvação: logo no “princípio”, a manifestação da Misericórdia divina perante o “desastre” da humanidade, prometia e anunciava a salvação que chegaria pela descendência da Mulher…Ela, a antecipadamente escolhida e preparada, seria “uma de nós”, mas concebida “Imaculada”, isenta da mancha do pecado, não por virtude própria, mas como crédito dos méritos que o Filho conquistaria na Cruz.
Esse privilégio primeiro não lhe retirou a inteira liberdade, dom com que Deus investiu cada ser humano e o torna capaz de amar…Por isso, Deus lhe pede uma resposta pessoal ao seu desígnio de fazer dela a Mãe do Redentor. O seu “sim” incondicional brota da certeza profunda e vivida de que o plano de Deus é sempre o bem das suas criaturas, porque Ele é a própria Misericórdia!
“Cheia de Graça” porque cheia de Deus, Maria torna-se a primeira missionária: ela é a figura viva da Igreja peregrina no mundo e de todo o cristão que não pode conter em si a alegria, a boa-nova da salvação que o Senhor a todos quer dar… Correndo, em serviço, para casa de Isabel, canta o louvor do Deus único, que sempre esteve presente na vida do homem e se revela como Misericordioso de geração em geração!
Em Belém, convocada pelas disposições humanas que sempre são ocasião para viver a vontade de Deus, Maria dá ao mundo o Menino e um imenso júbilo é anunciado aos pastores. De longe chegam os que buscam a Luz e encontram Jesus “com Maria, sua Mãe”.
As asperezas da vida humana não foram poupadas a Nossa Senhora: não deixou de ser pobre, obrigada a fugir da sua terra, refugiada com José entre estrangeiros para salvar a vida ameaçada do seu filho. Experimentou a incompreensão perante um filho adolescente que se revelava autor do seu próprio percurso de vida, mas via-o submisso, Deus “obediente” à sua autoridade materna… Viveu a dor da viuvez, a saída de casa do seu Jesus após 30 anos de quotidiana proximidade, as insinuações dos parentes assustados com a “loucura” dele, o descrédito dos conterrâneos, a animosidade das autoridades religiosas, até ao abandono de quase todos na pré-anunciada hora da Paixão… Com ela aprendemos que ser de Jesus não é “amuleto” que dá sorte e garante uma vida confortável, nem uma espécie de religião delico-doce, mas é luta contra o egoísmo que mata e  certeza de Vida que a morte não poderá vencer!
Em Caná da Galileia, a sua desvelada atenção às necessidades dos outros, leva o problema dos noivos a Jesus; então, mesmo antecipando a sua hora, o Senhor faz o primeiro milagre, transformando a água em vinho bom, símbolo de alegria e da festa que Deus quer fazer com todos os homens!
De entre as palavras de Maria conservadas no Evangelho – respostas ao Anjo, oração de louvor a Deus, diálogo com Jesus…- situam-se aqui as únicas palavras que Ela nos dirigiu a cada um de nós, quantos, pelos séculos fora, somos filhos seus: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” Pode haver melhor conselho?
Junto à Cruz, testemunha da entrega do Filho e das suas palavras de perdão, ela é “a Mulher”, a nova Eva, chamada a ser a Mãe do povo novo nascido do lado aberto de Jesus, verdadeira árvore da vida. Após a Ressurreição, permanece junto dos apóstolos, em oração, aguardando com a Igreja a chegada do Espírito prometido - Espírito Santo que nela tinha realizado tantas maravilhas…
No último livro da Bíblia, Maria é finalmente a Mulher vestida de sol, que passando por tribulações e perseguições serve de sinal da prometida vitória do Cordeiro e da Sua Igreja; essa Vitória sobre todo o mal, encerrando o ciclo do tempo, será a última palavra de Deus na história e pórtico da vida em plenitude: a eternidade na Festa do Amor.
Diz-nos a Igreja que “no decurso dos séculos tem havido revelações ditas «privadas», algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é «aperfeiçoar» ou «completar» a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história.” (CIC- nº67)
Precisamente este é o papel de Fátima: ajudar-nos a viver a Verdade de sempre, de uma forma mais profunda, nas circunstâncias e dificuldades específicas do nosso tempo, marcado pelo relativismo e pela indiferença. A “Senhora” veio a Portugal, em 1917, para nos abrir o seu Coração ─ esse mesmo Coração que Lucas refere, repetidas vezes no seu Evangelho, como o lugar onde Maria guardava e ponderava todas as coisas respeitantes ao seu filho Jesus…
Nossa Senhora nada refere a si própria, porque o seu conselho, mesmo que por outras palavras, será sempre o mesmo de há dois mil anos: Não ofender mais a Deus; a conversão, a mudança de vida como condição para a paz, a oração mais intensa e mais frequente, a responsabilidade de uns pelos outros na peregrinação para Deus, o poder da intercessão…O Rosário que nos pediu como oração diária, “ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio” (S.João Paulo II)
A forte devoção que o povo de todo o mundo - e particularmente em Portugal - dedica à Virgem, nada rouba a Deus, porque ninguém a amou e ama tanto quanto Jesus… e Ele é o nosso modelo! Longe de ser uma forma inferior de religiosidade, testemunha antes aquela sabedoria que Ele agradeceu ao Pai por ter revelado aos “pequeninos” porque, sem dúvida, estes são os mais sensíveis à linguagem materna do coração…
Da boca de Jesus saiu o maior elogio a Maria, quando a gabavam pela sua maternidade segundo a carne, sublinhando a verdadeira origem da felicidade dela: «Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.»(Lc 11, 28)
Senhora da Conceição como lhe chamamos na nossa Comunidade Paroquial, desde há séculos “Rainha de Portugal”, ou do Rosário como ela se identificou na Cova da Iria, Senhora de Fátima, no “altar do mundo”, de Vandoma na nossa cidade ou da Assunção, padroeira da nossa Diocese…com múltiplos nomes lhe prestamos testemunho de devoção filial e a louvamos pelas maravilhas que Deus fez na sua vida! Mas no coração de todos a sabemos única e sempre Mãe de Jesus, nossa Mãe, a Mãe de Misericórdia!
Um fragmento de fresco exposto na Yale University Art Gallery, nos EUA e proveniente das ruínas do batistério de uma das mais antigas igrejas cristãs conhecidas (Dura-Europos, atualmente a cidade-mártir Deir ez-Zor na Síria) é candidata ao título de “mais antiga imagem da Virgem Maria”. Esta representação iconográfica ─ que teve continuidade na tradição bizantina ─ mostra uma mulher que retira água dum poço, duas linhas de palavras que lhe chegam do Alto, e uma luz que abraça o seu corpo; julga-se que representa a Anunciação a Maria e a Encarnação do Filho de Deus. Podemos ver naquele “poço”, uma lembrança de que é no meio das banais tarefas da nossa vida que somos chamados a viver em união com o Senhor e a sermos santos; mas podemos vê-lo também como símbolo dessa nascente de “Água viva” que é o próprio Deus, o único que dessedenta o coração humano… Também nós, com Maria, na “escola de Maria”, vamos a Cristo, a verdadeira fonte da salvação, o poço sem fundo da eterna Misericórdia!
Acreditamos que Maria está, para sempre, junto de Jesus. Em cada Eucaristia, celebrada em qualquer lugar do mundo, a Mãe está presente, unida à oferta que aí se renova do único sacrifício do seu filho na Cruz. A visita da imagem peregrina da Senhora de Fátima constitua para nós um sinal sensível dessa quotidiana e tão próxima presença de Maria, nossa Mãe, e nos ajude a empreender a mais importante e urgente tarefa, a única necessária: a nossa conversão ao Amor!
A Mãe vem visitar-nos! Confiemos-lhe a nossa vida! Junto da sua imagem, façamos o propósito concreto de por em prática os seus conselhos…

MC