Ano Pastoral 2015 | 2016

“A Alegria do Evangelho testemunhada pela Misericórdia”

 

Reflexão para Fevereiro

“Vida Consagrada, Experiência de Misericórdia”

 Desde a origem, surgiram na Igreja mulheres e homens, ordens e congregações, hospitais e lugares de beneficência e toda a espécie de iniciativas a favor dos últimos: doentes, mendigos, presos, vagabundos, peregrinos, crianças abandonadas, empestados, leprosos… e os mais necessitados da Palavra salvadora. Tais homens e mulheres são o rosto samaritano e compassivo da Igreja, a expressão do melhor que a Igreja tem.
É normal a empatia com os pobres por parte de quem faz em público um voto de pobreza. Quem renúncia a fundar uma família própria, nascida do matrimónio, sabe que o seu celibato ou virgindade constitui na prática um compromisso e um manancial de ternura, sobretudo para com os mais necessitados de amor. Não consiste a divina vontade – que a pessoa consagrada jura buscar e cumprir numa comunidade de irmãos – em que todos tenham vida exuberante e completa?
A Exortação Apostólica Vida Consagrada faz esta afirmação luminosa e penetrante como um raio laser:
«Os consagrados estão chamados de maneira absolutamente especial a serem, através da sua dedicação em plenitude e com alegria, um sinal da ternura de Deus para com o género humano e um testemunho particular do mistério da Igreja que é virgem, esposa e mãe» (57).
Destaquemo-lo, porque é importantíssimo: Sinais e instrumentos da ternura de Deus. Reflexos do mistério da Igreja que é virgem, esposa e mãe.
Como representantes da Igreja esposa e mãe, os Consagrados têm de mostrar ternura com palavras e obras. Como espelhos da Igreja, têm de fazê-lo com elegância cristã.
Num hospital africano, uma jovem Religiosa dedicava-se a uma especialidade “infamante”: as doenças venéreas. Muita gente não via com bons olhos a presença da irmã em tal ambiente. Durante a visita do bispo, ela notou que o prelado não fazia tenção de entrar naquela enfermaria, mas lá conseguiu, a muito custo, convencê-lo. Ao chegar à porta da sala, o bispo não escondeu a sua repugnância e murmurou, entre dentes:
- Irmã, estas sim são almas negras.
- Mas eu, Excelência, sei como branqueá-las – ripostou prontamente a Religiosa.
Os consagrados são buscadores da intimidade com Jesus Cristo e servidores dos irmãos, cabe-lhes percorrer caminhos abrasados pelo egoísmo, pavimentados de indiferença, sinalizados pela violência mais brutal.
«Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática. Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á  chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas.
Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.
Não podemos fugir às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (Mt. 25,31-45). De igual modo ser-nos-á perguntado se ajudámos a tirar da dúvida, que faz cair no medo e  muitas vezes é fonte de solidão; se fomos capazes de vencer a ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza; se nos detivemos junto de quem está sozinho e aflito; se perdoamos a quem nos ofende e rejeitamos todas as formas de ressentimento e ódio que levam à violência; se tivemos paciência, a exemplo de Deus que é tão paciente connosco; enfim se, na oração, confiamos ao Senhor os nossos irmãos e irmãs.
Em cada um destes «mais pequeninos», está presente o próprio Cristo. A sua carne torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga…a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós. Não esqueçamos as palavras de São João da Cruz; «Ao entardecer desta vida, seremos examinados no amor.» (nº15 da Bula do Jubileu, “O Rosto da Misericórdia”).


Irmã Zélia /Oblatas do Coração de Jesus)