Ano Pastoral 2015 | 2016

“A Alegria do Evangelho testemunhada pela Misericórdia”

 

Reflexão para Março

“Chamados a viver de misericórdia” – As Obras de Misericórdia

Março 2016

O tempo da misericórdia é a antecipação (Ermes Ronchi)

É significativo que o termo misericórdia tenha deixado de estar na moda e aos ouvidos de muitos soe a sentimentalismo ou a um simples sentimento difuso de piedade, com algum caráter filantrópico.
A palavra hebraica Rahamim é utilizada pelo Antigo Testamento para designar, em primeiro lugar o seio materno e, em seguida, ternura, compaixão, de onde deriva ternura misericordiosa. Trata-se de um "plural de plenitude" da palavra rehem, útero, matriz. Este termo designa as entranhas de Yaweh, e, consequentemente a ternura maternal de Deus para com o seu povo e seus filhos, para com os pequeninos e os pobres. A imagem da ternura maternal está na raiz da misericórdia de Deus no AT: «Não é Efraim para mim um filho precioso, uma criança de tal forma preferida, que cada vez que falo contra ele, quero ainda lembrar-me dele? É por isso que minhas entranhas se comovem por ele; por ele transborda minha ternura.» (Jeremias 31,20). Este termo exprime também o sentimento de apego de um ser para com outro, daí, em extensão, compaixão pelo outro, misericórdia.
Outro termo importante para a compreensão da misericórdia é Hesed e exprime primeiramente a ideia de um vínculo no sentido de "cumprir aquilo que foi acordado" ou dar ao outro aquilo que lhe é devido segundo o previamente acordado. Assim, na esfera profana designa a amizade e a lealdade, sobretudo quando essas virtudes procedem de um pacto. Num segundo sentido, mais intuitivo e abrangente, a bondade, a compaixão, a fidelidade, o amor esponsal, a Aliança, a ternura de Deus. Em Deus esse termo exprime a fidelidade à sua aliança, e a bondade que dela decorre em favor do povo escolhido (“a graça”, em Ex 34,6) e, a partir de Oseias, pela referência à comparação da união conjugal, exprime o amor de Deus pelo seu povo: «Eu te desposarei a mim para sempre, eu te desposarei a mim na justiça e no direito, no AMOR (hesed) e na ternura. Eu te desposarei a mim na fidelidade e conhecerás o Senhor» (Os 2,21-22; cf. Sl 136; Jr 31,3…) e os benefícios que dele decorrem (Ex 20,6; Dt 5,10; 2Sm 22,51; Jr 32,18; Sl 18,51). Mas este hesed de Deus requer do homem também o hesed, isto é, a amizade confiante, o abandono, a ternura, a piedade, noutras palavras, trata-se de um conceito relacional, que não se refere a uma ação isolada, mas ao amor que se traduz na submissão alegre à vontade de Deus e no amor ao próximo (Os 4,2; 6,6).
A tradução grega mais habitual destes dois termo hebraicos (hesed e rehem) e o uso preferencial no Novo Testamento é éléos, de onde surge a invocação litúrgica Kyrie eleyson (Senhor tem piedade / misericórdia), assim como a palavra esmola. Éléos comporta em si a ideia de compaixão para com o sofrimento e particularmente uma compaixão que se traduz em atos. Os cegos, os possessos pelo demónio, os leprosos ou as crianças que sofrem contam-se no número daqueles que suscitam éléos, manifestação da misericórdia, de piedade (Mt 09,27; 15,22; 17,15; Mc 5,18, 19; Lc 17,12-13). Àqueles que Lhe suplicam dizendo «Tem compaixão de nós», Jesus proporciona alívio por meio de milagres. Ele não age de uma forma mecânica ou indiferente, mas «movido de compaixão» (Mt 20,31;34). Também o homem deve mostrar-se misericordioso para com o seu próximo, á imitação do «Deus, Senhor de misericórdia» (Sab 9,1) e do «Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias» (2Cor 1,3).
Etimologicamente misericórdia provém do latim misere, (miséria, necessidade) e cor / cordis (coração) e caracteriza-se por um coração sensível à miséria, à aflição de alguém. Ter um coração cheio de misericórdia significa pleno de compaixão, sensível ao infortúnio. No livro do profeta Isaías encontramos expressões visíveis da realização da misericórdia: «O jejum que Eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo, repartir o pão com quem passa fome, hospedar em casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente» (Is 58, 6-7).
O texto de Mateus 25, 31-46 apresenta-se-nos como uma síntese das exigências do Evangelho para com as pessoas necessitadas e marginalizadas do nosso tempo e recolhe uma tradição, presente no Antigo Testamento de atenção para com os pobres, os famintos, os enfermos, os presos, os sedentos, os nus, os órfãos, os inocentes, os estrangeiros, os mortos (cf. Is 58,6-9; 61,1-2; Job 22,6s; 31,17.19.21.31; Tb 1,16-17; 4, 16; Eclo 7,34s; 42,8; 63,1). No seguimento da tradição judaica, os escritos Novo Testamento incluem catálogos de virtudes e a misericórdia é interpretada de forma concreta (cf. lPe 3, 8; Rm 12, 8.15; 2Cor 7, 15; FI 1, 8; 2, 1; Cl 3, 12; Hb 13, 3). A tradição cristã especificou logo o que significa em concreto a misericórdia e, para tal, diferenciou e detalhou sete obras de misericórdia corporais e sete obras de misericórdia espirituais: obras de misericórdia corporais: 1. Dar de comer a quem tem fome 2. Dar de beber a quem tem sede 3. Vestir os nus 4. Dar pousada aos peregrinos 5. Visitar os enfermos 6. Visitar os presos 7. Enterrar os mortos. As obras de misericórdia espirituais: 1. Dar bons conselhos; 2. Ensinar os ignorantes; 3. Corrigir os que erram; 4. Consolar os tristes; 5. Perdoar as injúrias; 6. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7. Rezar a Deus por vivos e defuntos.
O papa Francisco, ao proclamar o Ano Santo da Misericórdia, escreveu: «o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina.» (Papa Francisco – Misericordiae Vultus 15). Como afirma a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do concílio Vaticano II «Sobretudo nos nossos dias, urge a obrigação de nos tornarmos o próximo de todo e qualquer homem, e de o servir efetivamente quando vem ao nosso encontro – quer seja o ancião, abandonado de todos, ou o operário estrangeiro injustamente desprezado, ou o exilado, ou o filho duma união ilegítima que sofre injustamente por causa dum pecado que não cometeu, ou o indigente que interpela a nossa consciência, recordando a palavra do Senhor: «todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (Mt. 25,40)» (GS 27). Na verdade, «O dever de nos fazermos o «próximo» do outro, e de o servirmos ativamente, é tanto mais premente quanto esse outro for mais indefeso, seja em que domínio for. (Catecismo da Igreja Católica 1932)
A prática da misericórdia não é, em primeiro lugar uma questão moral, mas a «superação da autorreferência, que nos torna apáticos e nos cega para as necessidades corporais e espirituais dos outros. Trata-se de vencer a dureza de coração perante o chamamento de Deus, que nos chega através do encontro com a necessidade dos demais», (W. Kasper – Misericórdia 176) trata-se, do encontro com Jesus Cristo na pessoa que sofre. Daí que a misericórdia seja, no fundo, uma questão de fé em Cristo, de seguimento de Cristo, de encontro com Cristo, como evidencia a parábola do bom samaritano, (cf. Lc 10, 25-37). No pobre é o próprio Cristo que vem ao meu encontro.
As catorze obras de misericórdia, corporais e espirituais, são expressões efetivas e afetivas de um coração que se abre a todas as situações dolorosas da humanidade e correspondem a quatro classes de pobreza:
A mais elementar é a pobreza física ou económica: não ter nem comida nem bebida com que saciar a fome e a sede, nem teto, nem roupa, nem abrigo para se proteger e podemos acrescentar ainda a falta de trabalho e emprego, as doenças ou incapacidades graves não suscetíveis de tratamento e de cuidados médicos adequados. Não menos importante do que a pobreza física é a pobreza cultural: o analfabetismo, em casos extremos, assim como igualmente dramáticos, a ausência ou a escassez oportunidades de formação e, por fim, a carência de oportunidades de futuro e exclusão da vida social e cultural. Como terceira forma de pobreza, devemos mencionar a pobreza social e relacional, e poderemos mencionar a solidão, e o isolamento, a morte do cônjuge, o falecimento de familiares e amigos próximos, dificuldades de comunicação de toda a espécie, a discriminação e marginalização até ao isolamento por prisão e desterro. Por último, a pobreza espiritual ou anímica, como a desorientação, o vazio interior, o desconsolo e o desespero sobre o sentido da própria existência, a confusão moral e espiritual, o abandono de si mesmo, a ausência ou marginalização da dimensão religiosa, sobretudo a apatia e indiferença. A pluralidade e diversidade as situações de pobreza exigem uma resposta pluridimensional. Não basta a ajuda material, ainda que fundamental, para a sobrevivência física; é igualmente necessário assegurar alívio às situações de pobreza cultural, social e espiritual. De facto «a misericórdia só faz justiça ao ser humano quando, longe de colocar a pessoa que padece necessidades numa situação perdurável de dependência, a ajuda para que o necessitado se ajude a si mesmo, ajuda no sentido da autoajuda. Isto só é possível quando também se dá remédio à pobreza cultural, social e espiritual». (W. Kasper – Misericórdia 177)
A prática da misericórdia transforma o coração do homem. «É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a tradição da Igreja chama as obras de misericórdia … Estas recordam-nos que a nossa fé se traduz em atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados» (Papa Francisco – Mensagem para a Quaresma 3).
A prática da misericórdia «é fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação» (Papa Francisco – Misericordiae Vultus 2).

António Nabais