Ano Pastoral 2015 | 2016

“A Alegria do Evangelho testemunhada pela Misericórdia”

 

Reflexão para Janeiro

“A Paróquia, Oásis de Misericórdia”

 Na sua mensagem para o dia Mundial da Paz, o Papa Francisco, no estilo que lhe é peculiar quanto à forma como se dirige ao Mundo e à Igreja, convida a paróquia a ser um oásis de misericórdia. Sob o mote “Vence a indiferença e conquista a Paz”, o Papa recorda que a credibilidade do anúncio cristão depende da forma como as comunidades cristãs vivem e testemunham, elas mesmas, a misericórdia: “a sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia”. Onde a Igreja estiver presente, qualquer pessoa deve poder encontrar aí um oásis de misericórdia. Do ponto de vista topográfico, uma “oásis” ou uma “ilha”, desde que lugares habitados, quase que correspondem à mesma experiência de recobro, onde o Homem pode, enfim, recuperar das vicissitudes a que foi sujeito. Depois da experiência de travessia, sem norte ou oriente que lhe aponte destino certo; depois da imensidão do mar ou do deserto, onde não se vislumbra a terra firma; aí, nessas periferias da existência em que o Homem é confrontado com indiferença do outro; é nesse lugar que a comunidade cristã deve estar presente para prestar os primeiros cuidados, na aceção plena dos muitos gestos bíblicos de misericórdia. A sabedoria bíblica recorda-nos, aliás, que o deserto foi lugar de tentação e de queda para o povo de Israel, é certo, mas foi também o lugar da graça, de onde Deus resgatou e conduziu o seu Povo para um Lugar outro, para a Terra da Promessa. Com efeito, o “deserto” bíblico não corresponde propriamente à definição dos dicionários, contradizendo mesmo a ausência de sinais de vida: apresentado só secundariamente como lugar geográfico, o deserto é sobretudo um lugar teológico, apresentado com muita água, com árvores (canas) e relva verde, ou seja, como um oásis. Sendo, portanto, um lugar provisório, de passagem, não definitivo, sem pontos de referência nem marcos de sinalização, pode-se  vislumbrar do deserto, contudo, aquele lugar definitivo onde Deus fará habitar e descansar o seu povo. Há, porventura, que parar, retemperar forças, recuperar o fôlego, mas prosseguir caminho rumo ao Lugar que nos espera. É esse lugar, esse oásis de misericórdia, que a paróquia é chamada a ser, acolhendo quem aí chega, provindo de todas as ilhas desabitadas da cidade ou de todas as periferias existenciais. Nesse mesmo sentido, permitimo-nos recordar a urgência desta tarefa, ao recordar as palavras de um poeta que connosco conviveu como paroquiano – o saudoso Daniel Faria – a quem devemos uma definição do tipo de Homem que nos pode procurar e a quem devemos acolher com redobrada misericórdia: “Homens que são como lugares mal situados / Homens que são como casas saqueadas / Que são como sítios fora dos mapas / Como pedras fora do chão / Como crianças órfãs / Homens sem fuso horário / Homens agitados sem bússola onde repousem / Homens que são como fronteiras invadidas / Que são como caminhos barricados / Homens que querem passar pelos atalhos sufocados / Homens sulfatados por todos os destinos / Desempregados das suas vidas / Homens que são como a negação das estratégias / Que são como os esconderijos dos contrabandistas / Homens encarcerados abrindo-se com facas / Homens que são como danos irreparáveis / Homens que são sobreviventes vivos / Homens que são sítios desviados / Do lugar”. A este tipo de Homem que nos procura, somos chamados, como comunidade, a vencer a indiferença e preparar um lugar de recobro e de paz, como um oásis de misericórdia.

Carlos Meneses