Ano Pastoral 2015 | 2016

“A Alegria do Evangelho testemunhada pela Misericórdia”

 

Reflexão para Outubro e Novembro

“A Alegria do Evangelho e a cultura do Encontro”

   “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”: assim começa a Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” que deve ser, antes de mais, um documento importante da nossa Igreja para ser rezado, meditado e experimentado na vida. As palavras iniciais colocadas pelo pontífice apresentam, de maneira clara, a essência do ser cristão, que é nada mais que contagiar o mundo com a Alegria que não é condicionada por nada desse mundo, mas que tem antes a sua origem n’Aquele que é fonte de toda Alegria, e que de nada depende. Alegria fundada na verdade, capaz de superar as mais angustiantes crises com as quais o homem se depara na sociedade atual. Cada cristão é convidado a encontrar-se tão intensamente com Jesus Cristo que reflita nele a alegria própria de quem vive na comunhão com Deus, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar permanentemente o seu diálogo pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, como diz o Santo Padre, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia, sem cessar. Só em Deus e na comunhão de vida com Ele, colocando-se na disposição de aceitar os Seus gestos salvadores, a Alegria poderá penetrar, continuamente e sempre de forma renovada, na vida da pessoa humana querida por Ele como única e irrepetível. O convite é-nos dirigido com as belíssimas palavras que rezam assim: «Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria». E, insiste, sublinhando que «não fujamos da res­surreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder». E, conclui, acrescentando: «que nada possa mais do que a Sua vida que nos impele para diante!».

 Somos, portanto, convidados a interiorizar a Alegria que nasce do Encontro com Cristo Ressuscitado e a procurar que essa Alegria envolva toda a nossa existência, transpareça no nosso rosto e nos leve a sair para espalhar a Boa Nova de Jesus ao mundo. Para viver e irradiar a Alegria do Evangelho há uma atitude prévia, um passo indispensável que não é fácil pois exige desprendimento e sacrifício: “sair”! E cada um que queira seguir este caminho da evangelização tem de sair de si mesmo. A proximidade de Deus na oração traduz-se num estilo de vida caracterizado pela proximidade dos outros, pelo Encontro, pelo Acompanhamento e pelo Serviço. Ensina-nos que “a Igreja em saída toma a iniciativa para ir ao encontro, (…) para se envolver e entrar na vida diária dos outros, (…) assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG 24). Por isso, a “saída” não termina nas pessoas próximas nem na família. Contudo, é no seio da Família que deve ser gerado um ambiente onde se aprende a comunicar na proximidade, um lugar onde todos aprendemos o que significa comunicar no amor recebido e dado e compreender que as nossas vidas estão entrelaçadas numa trama unitária, que as vozes são múltiplas e cada uma é insubstituível.
Assim, o desafio que hoje se nos apresenta é não nos limitarmos a produzir e consumir informação, embora esta seja a direção para a qual nos impelem os potentes e preciosos meios da comunicação contemporânea, irrenunciáveis sobretudo para os mais jovens. A informação é importante, mas não é suficiente, porque muitas vezes simplifica, contrapõe as diferenças e as visões diversas, solicitando a tomar partido por uma ou pela outra, em vez de fornecer um olhar de conjunto. É verdade que os primeiros educadores são os pais, mas não devem ser deixados sozinhos; a comunidade cristã é chamada a colocar-se ao seu lado, para que saibam ensinar os filhos a viver no ambiente da comunicação, segundo os critérios da dignidade da pessoa humana e do bem comum. Não basta circular pelas «estradas» digitais, é necessário que a conexão seja acompanhada pelo Encontro verdadeiro… Fazer-se próximo… O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais, os afastados e perdidos. O Encontro com o outro multiplica a capacidade do Amor. Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do Encontro… Sair ao encontro de tantos irmãos e irmãs que estão na periferia, que têm sede de Deus e não há quem lho anuncie.

É a palavra de ordem do Papa Francisco, na recente Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” : “Hoje todos somos chamados a esta nova “saída” missionária. Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias, que precisam da luz do Evangelho” (AE 20). Como Transmitir o que não muda, num mundo em mudança? Só mudando. Não o Evangelho que é o mesmo de sempre, mas a atuação pastoral. É o desafio de uma nova “saída” missionária da Igreja, lançado pelo Papa Francisco que continua, insistindo: “Precisamos de nos exercitar na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação com o outro, é a capacidade do coração que torna possível a proximidade, sem a qual não existe um verdadeiro encontro espiritual” (AE 171). É nesse sentido que o Papa fala de uma Igreja de «portas abertas», para ir ao encontro e acolher as pessoas, qualquer que seja a sua situação. Impõe-se um sério exame de consciência para avaliar a nossa capacidade e prática de acolhimento das pessoas nas paróquias. Os meios de comunicação cristãos têm um sentido de missão que não poderá ser esquecido e, assim, deverão ser espaços onde se encontra uma informação alternativa, alheia à lógica do consumismo e aos problemas gerados pela crise económica e dependência financeira. Neles deveremos encontrar a informação que dá conta das necessidades dos mais pobres e desfavorecidos, daqueles que não têm voz. O encontro com Cristo, nosso irmão Primogénito, conduz-nos ao encontro com os outros e a vê-los como nossos irmãos. Da contemplação de Cristo devemos partir para as periferias onde vivem muitas pessoas com carências e necessidade de ajuda. Prestemos, portanto, maior atenção, apreço e solidariedade aos mais sofredores. Também nos outros descobrimos muitos testemunhos de bondade, de retidão e de paz que
nos ajudam a viver a Quaresma e a Páscoa. Deste modo, o encontro, o caminho e a missão que advêm do Batismo são um processo em comunidade e solidariedade. Somos convidados a ser mais sóbrios e a renunciar a alguns bens para os poder partilhar com os mais pobres. Os órgãos de comunicação cristãos devem ser sinal de esperança e transmissores de Alegria, pois dessa forma serão, também, promotores de uma cultura de Encontro e de valorização do Homem.

O Papa Francisco não nos deixa parados, não nos deixa simplesmente a pensar, mas quer mover-nos. A primeira coisa a perceber é que a Igreja tem uma coisa a dizer a este mundo que vive em tristeza: Jesus vem salvar-nos! Isto é razão de Alegria para todos. Ponhamo-nos, então, em movimento, saiamos do nosso comodismo, deixemos os nossos apegos e hábitos mundanos e esforcemo-nos por desenvolver a graça do Batismo em três dimensões: ENCONTRO com o Senhor Jesus que nos leva a viver na Sua presença, a abrir o coração aos outros e a cuidar deles; CAMINHO que nos conduz a progredir no bem, na sabedoria, na paz e no serviço; MISSÃO que nos convida a partilhar a riqueza da fé, da esperança e do amor. São atitudes que pedem algum sacrifício, colocam algumas exigências e renúncias mas enriquecem-nos e abrem novos horizontes à nossa vida.

Somos chamados a testemunhar a Alegria do Evangelho. Se assumirmos o dinamismo missionário da Igreja para levar a todos os homens essa Alegria, então alcançamos o rejuvenescimento da Igreja e dos fiéis: “Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De facto, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida ao demais…Cristo torna os seus fiéis sempre novos, ainda que sejam idosos…Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade…” (EG 10 e 11). 

Gilda Príncipe Ramos