Ano Pastoral 2012/2013
ANO DA FÉ 11/10/2012 a 24/11/2013

“A Fé, fonte de vida”

 

Reflexão para Outubro e Novembro

FÉ: UM DOM DE DEUS

 

Neste Ano da Fé que tem como objectivo principal que cada cristão “possa redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo”(Bento XVI) e em que somos convidados a redescobrir a fé, é bom recordar que a fé é um dom de Deus, é fruto da gratuidade do seu amor.

Com efeito a fé não se deve ao nosso esforço, nem é o resultado da nossa procura. Nós desejamos e procuramos, mas “acreditar” é dom de Deus. A fé nasce e alimenta-se da graça do próprio Deus que é a sua origem. O homem só inicia o seu movimento para Deus porque, desde o primeiro momento, Deus está no mais profundo do seu ser, atraindo-o para o seu próprio Mistério. É a sua presença amorosa que origina, desenvolve e mantém o itinerário humano para Deus. Buscamos Deus, mas Ele “não está longe de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos”(Act. 17,27-28). Sem a sua luz, ainda que seja só sob a forma de perguntas que brotam do coração humano, ninguém procurará o seu rosto e, sem a sua presença, ninguém dará qualquer passo em direcção a Ele.

Todos estamos habitados por esta presença amorosa de Deus. Todos, mesmo os indiferentes e os que não acreditam, vivemos envolvidos pela graça de Deus que nos acolhe e nos ama infinitamente. Deus não força nem coaciona ninguém. Deus só se oferece, sem nunca retirar a sua amizade. Nem mesmo o pecado destrói a sua presença, apenas impede que nos abramos a ela. Deus dá-se e vem permanentemente ao nosso encontro através das pessoas, experiências e acontecimentos que nos interpelam e nos atraem para Ele. A fé cristã, mais que um sentimento vago ou um desejo forte, é a adesão a Deus e a tudo o que d’Ele procede. Por isso o esforço de quem procura a verdade e quer acreditar não tem como finalidade conseguir possuir o próprio Deus, mas orienta-se mais no sentido de se fazer e tornar disponível para escutar, acolher e sintonizar como chamamento que lhe é feito, a deixar-se encontrar por Deus e pela gratuidade do seu amor. Trata-se de reconhecer Deus e a sua presença: “o Senhor está realmente neste lugar, e eu não o sabia”(Gen. 28,16). Quem se orienta para Deus vive uma experiência difícil de explicar, mesmo que esta se vá tornando cada mais inconfundível. Procura, mas sobretudo é procurado. Chama, mas sobretudo é chamado. Dá passos e caminha, mas é atraído e conduzido por Deus. Não sendo o homem a fonte da procura, o que melhor define a sua postura é o acolhimento.

A fé não é o resultado das nossas investigações, mas brota sempre de uma confiança cada vez mais viva que o próprio Deus vai despertando ao revelar-se no homem. Por isso, para acreditar, o mais importante é colocar-se diante de Deus e acolher o seu amor e o seu chamamento. A fé também não é uma decisão que tomamos convencidos pelo testemunho ou pela argumentação de outros crentes. Estes só podem ser uma ajuda e um convite a escutarmos Aquele que já está presente em nós. O fundamental e decisivo é o encontro com Deus em Jesus Cristo. Este é o caminho para despertar e reavivar a nossa fé.

A fé é um dom, uma graça sobrenatural e uma capacidade interior, que Deus dá a todos aqueles a pedem e procuram. Diz o Papa Bento XVI: “a nossa fé cristã não vem como conclusão de um raciocínio lógico perfeito, nem de um alto ideal ético. Estas coisas podem ser boas, mas ainda não fazem nascer a fé, que vem de uma experiência pessoal e comunitária muito bonita: nasce do encontro pessoal com Deus, por meio de Jesus Cristo. Deus não é uma ideia abstrata, nem uma energia cósmica, mas um ser pessoal, um “Tu”, que se relaciona connosco como um Pai e com quem também nós podemos relacionar-nos como filhos”.

A fé, mais que uma postura intelectual, é a nossa resposta e adesão a Deus e traduz-se numa relação vital, pessoal e comunitária com Ele. Mediante o dom sobrenatural da fé, somos capazes de reconhecer a Deus e de aderir a Ele com firme certeza interior e de orientar a nossa vida para Ele, somos capazes de reconhecer a Sua vontade e de a acolher livremente como nossa. De muitas maneiras Deus vem ao nosso encontro e se manifesta a nós, mas é especialmente através de Jesus Cristo, Filho de Deus que se fez homem, que nós conhecemos a Deus: “ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem O deu a conhecer”(Jo. 1,18).

O dom da fé é como uma luz interior, que nos faz reconhecer Deus, como Deus, e nos leva a assumir o nosso lugar de criaturas. Pela luz da fé cristã, aprendemos a ver a nossa vida, as pessoas, o mundo e todas as coisas de um modo novo.

A fé é pois um dom gratuito que temos de agradecer. Não é uma conquista ou algo ou alguma coisa a que temos direito. A fé é-nos dada, é um dom de Deus. Isto não quer dizer que Deus a ofereça arbitrariamente a uns e a negue a outros. Todo o homem foi criado por Deus e leva dentro de si um convite para que o procure e encontre. Sem este encontro, não se salva como homem. Por isso, devemos dizer que Deus, sendo gratuito, é o bem mais precioso e necessário para o homem, pois Ele é a sua alegria, a sua plenitude e a sua salvação. Assim no-lo dão a conhecer as palavras do anjo a Maria: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” e a resposta da Virgem: “Heis aqui a escrava do Senhor, faça-se em segundo a tua palavra”(Lc. 1, 28.38).

O Ano da Fé é este “tempo favorável” em que a Igreja nos convida a reavivar a chama da fé e a descobrir, como diz Santo Agostinho, aquele Deus “de quem afastar-se é cair, a quem dirigir-se é levantar-se, em quem permanecer é estar firme, a quem voltar é renascer, em quem habitar é viver”.

A fé é um dom Deus que nos faz crescer humana e espiritualmente, mas precisa de ser alimentada e reavivada constantemente, como a chama da vela que a simboliza, caso contrário, ela pode tornar-se fraca, esfriar e até extinguir-se.

Alimentemos a nossa fé rezando o hino “Guia-me tu, doce luz” de Newman e que vem na Liturgia das Horas:

 

Luz terna, suave, no meio da noite,

Leva-me mais longe.

Não tenho aqui morada permanente:

Leva-me mais longe.

 

Que importa se é tão longe, para mim

A praia onde tenho de chegar,

Se sobre mim levar constantemente

Pousada a clara luz do teu olhar?

 

Nem sempre pedi como hoje peço

Para seres a luz que me ilumina;

Mas sei que ao fim terei abrigo e acesso

Na plenitude da tua luz divina.

 

Esquece os meus passos mal andados,

Meu desamor perdoa e meu pecado.

Eu sei que vai raiar a madrugada

E não me deixarás abandonado.

 

Se tu me dás a mão não terei medo,

Meus passos serão firmes no andar.

Luz terna, suave, leva-me mais longe:

Basta-me um passo para a ti chegar.

  

P. António Abel R. Canavarro