Ano Pastoral 2008/2009

Caminhar com São Paulo

A cruz é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios”[i], valores e prioridades.

 

 

 Os valores do sucesso, do dinheiro, do parecer enchem as nossas ocupações e preocupações. Ter, comprar, gastar. O prazer, não sofrer, nada sacrificar, fazer o que nos apetece (que pode ser nada), preenchem o vazio, justificam o absurdo. Vivemos presos à nossa liberdade. Que valores? Que prioridades? 

Os outros? Que me interessa? Não tenho culpa de estarem mal! O individualismo preenche as relações sociais. Na família, no prédio, na rua, nas instituições. Quando alguém se preocupa com os outros é para os manipular, para os levar para este ou para aquele fim. O eu, isolado, na família, no grupo, nos que pensam como eu, é o centro de interesses. Quem não concorda connosco ou é burro, ou não está dentro da questão, ou está fora do contexto, ou não está dentro da lógica que se pretende. Queremos ser ouvidos, mas não toleramos as opiniões divergentes. Não perguntamos e não queremos ouvir. Somos donos de nós e da verdade. Nas associações, nos grupos e movimentos somos intolerantes, agredimos por palavras ou por gestos, quem não nos aceita.

A cruz é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios”1. “É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim e sem medida, não está na lógica do poder, de autoridade, de riqueza, da importância, mas antes no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.”[ii]

A crise económica e social que se instalou no nosso meio começa a mostrar a falsidade dos valores, das prioridades dominantes, apregoadas por líderes, por governos, por pensadores do regime.

Os que podem vivem para ganhar, enquanto muitos nem ganham para viver. “Muita riqueza a todo o custo ocasionou muita pobreza insustentável”[iii]. Os homens e as mulheres deste tempo foram seduzidos e deixaram-se tentar. O materialismo concretizado no ter e no gastar, na arrogância do poder, na quinquilharia religiosa de desobriga[iv] fez esquecer o valor supremo de cada ser humano feita à imagem e semelhança do criador. Alguns, sentindo mais as dificuldades no orçamento, no trabalho, interrogam-se angustiados: como é que eu me vou arranjar? O que é que eu vou fazer agora? Como é que eu saio disto?

Há uma saída, há uma solução. A renúncia, a cruz é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios”1. É o tempo de voltar ao essencial da vida. É o tempo de redefinir as prioridades da existência. Que valores? Viver para quê? Viver como? Onde está a força para mudar? “A força e a sabedoria que nos é proposta manifestam-se na fragilidade, na pequenez, na obscuridade, na pobreza, na humildade, na tolerância”.2 Mas estes valores são escândalo para a sociedade e loucura para os nossos contemporâneos.

A sociedade ocidental sofre a descristianização progressiva. A prática ritual dominical é já minoritária[v]. E Deus sabe quem viverá plenamente o seu projecto… A moda é viver como ateu, nas ideias, nos interesses, nas atitudes. Um resto de gente forte, de heróis anónimos contraria a moda de viver sem Deus. Ser cristão hoje é uma opção que exige coragem pessoal, é um desafio. Implica viver de forma diferente, procurar outros interesses, outras prioridades.

Vida sóbria, concentrada no essencial. Renúncia ao supérfluo. Poupar, não gastar, renunciar ao consumo compulsivo[vi]. Partilhar. Porque “este tempo de crise é ainda um tempo de exigência acrescida e indeclinável para a aproximação de todas as formas de pobreza”[vii]. Humildade, discrição, sobriedade.

Para ter forças para estas opções, para manter a persistência, é preciso acreditar que esse é o caminho certo, o caminho da felicidade. Para isso é preciso silêncio, muito silêncio, oração, meditação da palavra. Vida nova no amor, na caridade, na esmola como forma de dar e de se dar, na aceitação das diferenças e na tolerância dos limites[viii]. Para estas opções é preciso tornar-se livre. “A privação, materializada no jejum (no sentido literal do termo ou noutro sentido) é um caminho de liberdade” para a educação do desejo e da vontade[ix]. Procurar uma nova liberdade para a misericórdia, para a paz e para a alegria[x]. É este o caminho que agora nos é proposto. “É este o tempo favorável “[xi]. É o tempo favorável de revisitar o nosso baptismo, as opções afirmadas, as renúncias ditas.

É este o caminho para a finalidade da vida, para a plenitude do ser, para viver bem, para uma vida melhor, connosco, com os outros.

 


[i] 1Cor 1, 21-31.

[ii] Liturgia, 3.º Dom Quaresma, Ano B. http://www.dehonianos.org, acedido em 2009-03-15.

[iii] Clemente M, Mensagem da Quaresma do Bispo do Porto. www.ecclesia.pt, acedido em 2009.03.01.

[iv] Caballero B, A palavra de cada Domingo, Ano B. Apelação, Paulus ed, 2001, p 67.

[v] Borges A, Janela do Infinito. Porto, Campo de Letras, 2008, p.75.

[vi] Haring B, Vida em Cristo plenificada. Porto, Ed Perpétuo Socorro, 1998, p.113-116.

[vii] Comunicado final do Conselho Presbiteral da diocese do Porto, 2009. www.ecclesia.pt, acedido em 2009.03.05.

[viii] Diez F M, Traços característicos dos cristãos de hoje, in Cristãos ao serviço do reino. Coimbra, Gráfica de Coimbra 2, 2007, p. 111-148.

[ix] Mensagem do Papa para a quaresma 2009. www.ecclesia.pt, acedido em 2009.03.01.

[x] Kung H, Porque ainda ser cristão hoje. São Paulo, Verus ed, 2004, p.91-92.

[xi] 2 Cor. 6,2.