Ano Pastoral 2008/2009

Caminhar com São Paulo

Reflexão para Outubro e Novembro

A comunidade da esperança.
A comunidade espera a verdadeira Esperança

(Rom 8, 18-30)

 

Diante da crise financeira, à escala internacional, do crescente endividamento das famílias, da insegurança galopante, podemos perguntar-nos se haverá ainda lugar para a esperança, ou se tudo caminha para o vazio.

A existência humana está sempre orientada para o futuro: o homem dilata e alarga o seu ser para o futuro, tanto na sua consciência como na sua actividade. Esta dimensão futura do homem é precisamente a esperança, através da qual pode superar qualquer situação do aqui e agora adversa. O homem tem muitas esperanças, umas maiores, outras menores, ao longo da sua história ou mesmo do seu período de vida. Mesmo que realizasse todas as suas esperanças, o homem sente sempre a necessidade de uma esperança que vá mais além: a esperança fundada em Deus, «aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim, cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto», cujo reino «está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança» (BENTO XVI - Spe Salvi, 31). Se muitas vezes é difícil encontrar razões para ter esperança, sobretudo quando não se crê em Deus, aqueles que depositam a sua confiança no Deus da Bíblia têm mais do que nunca o dever de «dar razão da sua esperança a todo aquele que lha peça», assim escreve Pedro na sua primeira carta (1 Pd 3,15). Têm de compreender o que a esperança da fé contém de específico, para puderem viver em comunidade enraizados na esperança que sustenta toda a vida.

 Paulo encoraja os cristãos de Tessalónica a não se entristecerem «como aqueles que não têm esperança» (1 Ts 4,13). Sob o impacto da secularização, as ideologias da esperança intramundana conquistaram o poder como teodiceias, que, no momento presente, desaparecem no horizonte sem futuro de uma derrota completa. A humanidade naufraga no vazio, a menos que recupere a esperança cristã. Como afirma o Papa na Encíclica Spe Salvi, «aparece aqui como elemento distintivo dos cristãos o facto de estes terem um futuro: não é que conheçam em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida não acaba no vazio. Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna visível também o presente. Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo não era apenas uma «boa nova», ou seja, uma comunicação de conteúdos até então ignorados. Em linguagem actual, dir-se-ia: a mensagem cristã não era só «informativa», mas «performativa». Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova. (BENTO XVI - Spe Salvi 2)

 Esta compreensão da esperança cristã não se refere em primeira instância a um mero conhecimento intelectual, mas adquire uma capacidade performativa, isto é, contem em si a capacidade de transformar a vida e de a projectar no futuro. Por isso, podemos exclamar com S. Paulo que «Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rom 8,38-39).

 Em Jesus Cristo, Deus realizou em plenitude o seu plano em favor da Humanidade; n’Ele fomos redimidos. «A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho.» (BENTO XVI - Spe Salvi, 1)

 Se o mundo tal como o vemos está tão longe da justiça, da paz, da solidariedade e da compaixão, para os crentes esta não é uma situação definitiva: «Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança.» (BENTO XVI - Spe Salvi, 31)

 Na verdade, somos portadores de uma promessa que abre novas possibilidades na vida humana. Esta promessa olha para o futuro, mas enraíza-se numa relação com Deus que nos fala aqui e agora, e nos chama a fazer opções concretas na vida. Em Jesus Cristo, todas as promessas de Deus são já uma realidade, como dirá Paulo aos cristãos de Corinto (Cf. 2 Cor 1, 20). Para os cristãos, Jesus é o Ressuscitado que está connosco no nosso dia de hoje. «Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20).

 Paulo, num outro texto da carta aos Romanos é ainda mais claro: «A esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom 5, 5). Longe de ser um simples desejo para o futuro sem garantia de realização, a esperança cristã é a presença do amor de Deus em pessoa, o Espírito Santo, que nos conduz para uma comunhão em plenitude.

 Sob o impulso do Espírito de Cristo, os crentes vivem uma solidariedade profunda com a humanidade afastada das suas raízes em Deus. Ao escrever aos romanos, Paulo evoca os sofrimentos da criação que espera, comparando-os às dores do parto. Depois continua: «Também nós que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo.» (Rom 8, 18-23) A nossa fé não nos coloca num estado privilegiado, fora do mundo, nós «gememos» com o mundo, partilhando a sua dor, mas vivemos essa situação na esperança, sabendo que, em Cristo, «as trevas passaram e a luz verdadeira já brilha» (1 Jo 2, 8).

 Esperar é, portanto, antes de mais, descobrir nas profundidades do nosso dia de hoje uma Vida que segue em frente e que nada pode parar. É ainda acolher esta Vida com um sim de todo o nosso ser. Lançando-nos nesta Vida, somos levados a depositar aqui e agora, no meio dos caminhos da nossa vida em sociedade, sinais de um outro futuro, sementes de um mundo renovado que, no momento certo, darão fruto.

 

Maria, fonte da esperança,

Mãe do tempo novo,

Ensina-nos a dilatar o horizonte da nossa esperança

Para contemplarmos o rosto luminoso do teu Cristo!