Ano Pastoral 2005/2006

Viver em liberdade, construir o amor

Reflexão para o tempo da Páscoa

A alegria e a esperança: frutos da liberdade
 

 

«... Então anunciarei o teu nome aos meus irmãos
e te louvarei no meio da assembleia.
Vós, que temeis o Senhor, louvai-o!
Glorificai-o, descendentes de Jacob!
Reverenciai-o, descendentes de Israel!
Pois Ele não desprezou nem desdenhou a aflição do pobre,
nem desviou dele a sua face;
mas ouviu-o, quando lhe pediu socorro.
De ti vem o meu louvor na grande assembleia;
cumprirei os meus votos na presença dos teus fiéis.
Os pobres comerão e serão saciados;
louvarão o Senhor, os que o procuram.
Vivam para sempre os vossos corações.»

Escrevi este texto aqui como uma pequena adivinha.

Não há dúvida que é uma passagem alegre, cheia de entusiasmo, provavelmente um salmo de festa –será possivelmente a resposta imediata. E é verdade: é uma passagem localizada na segunda metade de um salmo. Não será, talvez, imediatamente reconhecido por um leitor que não seja especializado. Vou dar, por isso mais umas pistas. São os versículos 23 a 27 do Salmo 22. Mais uma informação: Este salmo começa pela frase «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?...». Penso que agora já lembrará alguma coisa a todos.

Jesus, na cruz, poderia ter escolhido diversos lamentos ou queixumes, mas foi escolher as primeiras palavras de um salmo que é um dos mais impressionantes cantos à felicidade na confiança em Deus. Quem ouviu aquelas palavras de Jesus poderia não ter percebido, como aconteceu a muitos, mas a mensagem que Ele passou foi algo de parecido a «sou feliz, estou a cumprir livremente a vontade de meu Pai». «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra» (Jo 4, 34) teria dito uns tempos antes.

De facto, o momento mais feliz da vida de Jesus Cristo foi, paradoxalmente, a cruz.

Também o momento de maior soberania, e portanto, liberdade, foi, paradoxalmente,  quando tinha as mãos e os pés pregados. «Se és o Filho de Deus, desce da cruz...» diziam; Jesus não o fez precisamente porque era (é) o Filho de Deus, livre para fazer o que quisesse, livre para cumprir a vontade do Pai.

Disse duas vezes “paradoxalmente”. A vida cristã parece estar cheia de paradoxos, mas esses paradoxos estão só na nossa cabeça. Custa-nos perceber a liberdade e alegria de Jesus porque percebemos muito pouco de liberdade e menos ainda de alegria. Vamos pensar um pouco mais.

Muitas vezes dizemos “livre como um pássaro...”. Permitam­‑me umas palavras de zoologia: se um pinto é tirado do ninho e colocado a uns centímetros do ninho, a mãe ignora‑o totalmente, e deixa‑o morrer à fome, apesar dos gritos dele a reclamar a atenção da mãe. Porque o pássaro não é nada livre, é, algo parecido a um autómato, cheio de instintos mecânicos e comportamentos rígidos. Não posso deixar de me lembrar da grande liberdade (?!) que nos foi concedida de a mãe poder matar os seus filhos até às dez semanas.

Também associamos frequentemente o conceito de alegria, ou de felicidade, com uma espécie de bem‑estar físico, uma sensação de “animal saudável”. Vi em algum lugar um texto de propaganda política que, sob uma fotografia de uma família na cozinha dizia algo como “sou feliz, a minha casa é bonita, os meus filhos gozam de boa saúde, tenho um bom automóvel e a nossa comida é de boa qualidade”.  Sem dúvida isso é uma felicidadezinha, mas não é felicidade.

Parece que desejamos uma liberdade e uma felicidade à medida do animal e não do homem: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus...» (Gen, 1, 27), portanto, livre e feliz. Depois, o homem escolheu uma felicidadezinha e uma liberdadezeca, «...sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal» disse a serpente (cft. Gen 3, 4) e foi um péssimo negócio, o homem podia ser Deus e preferiu “ser como...”.

Mas Deus é mesmo livre e feliz: A suprema liberdade é entregar a Sua vida «...Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente» (Jo 10, 18), ainda por cima, para me salvar a mim e a quem está a ler.

Jesus, carregado com a cruz não pensava numa abstracta humanidade de discurso político, mas individualmente em mim, em ti nele, naqueloutro, “isto é para perdoar esse pecado que fizeste hoje” ...Eu te resgatei, e te chamei pelo teu nome; tu és meu. (Is 43, 1).

Essa Liberdade é a que nós passamos a ter: a liberdade de Jesus é tal que nem a morte pôde nada contra ela: Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (I Cor 15, 55).

O que é, então a liberdade? A resposta imediata é “poder fazer aquilo que eu quero”. Basicamente certo. Fazer o que quero significa soberania, poder. A criança passa pela rua e diz “essa loja é do meu pai”; então pode entrar na loja e está à vontade, porque é filho do dono da loja.

Após a morte e ressurreição de Jesus, tornamo-nos filhos de Deus: “aquela nuvem lá acima é do meu Pai; aquele mar é do meu Pai; aquela cordilheira é do meu Pai...”. Sou livre, porque a criação é a obra do meu Pai. A soberania, a liberdade, porém, tem uma espécie de buraco negro, difícil de penetrar: eu mesmo. Onde deixo de ser livre não é nas correntes de uma cela, na forçada imobilidade de uma doença nem nas opressões de uma tirania. As grandes correntes, paralisias e tiranias estão em mim próprio: nos meus defeitos, nas minhas debilidades muitas vezes aceites como “eu sou assim... que se lhe há de fazer...” , as nossas paixões, muitas vezes disfarçadas por espessas roupagens de racionalização e autodesculpa. 

A segunda metade do século XX foi a época das “frentes de libertação”. A Páscoa traz­‑nos a mensagem de que podemos criar a nossa pópria frente de libertação. Seremos livres quando não sejamos escravos de nós próprios. O método é simples. Só é preciso fazer uma coisa: É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei ((Jo 15, 12). Fácil? Com certeza que não, mas a liberdade não é fácil: fácil é a escravatura, o não pensar, o ceder às minhas apetências do momento, a “liberdade” do pássaro.

Eu quero ser livre: o que devo fazer?

O vencedor da maratona chega cansado à meta. Não creio que isso cause estranheza a ninguém. Não sabeis que os que correm no estádio correm todos, mas só um ganha o prémio? Correi, pois, assim, para o alcançardes. (1 Cor 9, 24). Temos uma certeza melhor ainda, sabemos que todos podemos ganhar o prémio, mas teremos de correr até ao último dia da nossa passagem na terra.

Por onde começar, então? Vamos a uma coisa de cada vez. Hoje a pontualidade, depois os meus modos ásperos com os outros, a sensualidade, o orgulho... há sete pecados capitais: quem não os tiver pode começar a atirar pedras.

Dá­‑me um exemplo de pessoa livre.

Há um exemplo. Maria disse “sim” e abriu os céus. Ouçamos o seu conselho: fazei o que Ele vos disser (Jo 2, 5). Jesus transformou a água em vinho, mas só depois de os serventes encherem as vasilhas até cima (Jo 2, 8).

 

Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia!
Porque quem merecestes trazer em vosso puríssimo seio, aleluia!
Ressuscitou como disse, aleluia!
Rogai a Deus por nós, aleluia!
Exultai e alegrai-vos, ó Virgem Maria, aleluia!
Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

Oremos
Ó Deus, que alegraste o mundo
com a ressurreição de vosso Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso,
concedei-nos, vo-lo suplicamos,
que por sua Mãe, a Virgem Maria,
alcancemos as alegrias da vida eterna.
Pelo mesmo Cristo, nosso Senhor. Amém.