Ano Pastoral 2005/2006

Viver em liberdade, construir o amor

Reflexão para o tempo da Quaresma

“As dependências”
 

“Eu sou independente! Não dependo de nada nem de ninguém!

Sou livre! Faço o que quero!

Em mim mando eu! Ninguém, nada manda em mim! Ninguém manda na minha cabeça! Ninguém é senhor das minhas ideias, ninguém pensa por mim. Sou livre, faço o que penso e quero!”

Ser livre, independente, é o sonho de todo o ser humano.

As atitudes que tomamos são motivadas pelas ideias. As ideias são a orientação para as nossas acções e omissões. O ideal tem princípios, determinados princípios. O ideal é o sentido que damos à nossa vida. A felicidade dos seres humanos reside na concretização do seu ideal. A coerência com o ideal é a garantia de harmonia, de bem-estar, a partir dos princípios que consideramos fundamentais. A vida pessoal faz-se neste caminho para o ideal, para o nosso bem.

A liberdade é o caminho para este bem. Mas há tantas coisas que limitam a nossa liberdade para escolher o nosso bem, que nos prendem! Prendem-nos, seduzem-nos e ficamos cativos, escravos de senhores. Senhores que nos escravizam de tal maneira que, quando nos submetem, até achamos que estamos a fazer o nosso próprio interesse, o nosso bem. E se ficarmos distraídos até acabamos por perder o nosso rumo, o nosso ideal, ao sabor dos ventos, que nos puxam para uma e para outra coisa. A partir de algum momento só estaremos bem se usarmos, se tivermos isto ou aquilo. “Não consigo viver sem isto, nem sem aquilo.” Dependemos disso para o nosso bem-estar. Ficamos dependentes!

A sedução dessas coisas, desses senhores que nos dominam, é forte, poderosa, está dirigida aos nossos sentidos mais profundos, da conservação do eu, da espécie, do conforto, da facilidade, do agradável, do imediato.

E por elas trocamos, por elas hipotecamos a nossa liberdade para orientar a nossa vida para o nosso bem, para a felicidade.

Estão aí as dependências químicas (fumo de tabaco, álcool, outras drogas), as psicológicas (consumir, comer, ter, o poder, a imagem), a escravizar os seres humanos. “Eu não queria mas tive  de …!”

No nosso mundo actual há uma tendência crescente a ter mais. A publicidade, impõe-nos ofertas de consumo obrigatório, é preciso ter mais, toda a gente precisa de…

 “O homem torna-se escravo do fluxo de acontecimentos e do pensamento impessoal que o transforma numa coisa no meio das coisas.”[1]

Os impulsos e os instintos impelem-nos a agir independentemente da nossa vontade e somos sujeitos a diversos processos que determinam o nosso comportamento.

Todos os seres humanos saudáveis estão sujeitos aos desejos. Os desejos fazem parte da nossa natureza humana. Mas porque somos limitados nos recursos, nas energias, no tempo de que dispomos, temos que fazer escolhas, opções. A vontade ajuda-nos na gestão dessas opções, orienta os nossos pensamentos, actos, palavras e omissões, no caminho do nosso bem, para o ideal que vamos restabelecendo, para o sentido que queremos dar à nossa vida. A felicidade não resulta de fazer o que se quer, mas do agir segundo o nosso projecto pessoal.

Que consciência temos, da nossa liberdade, da nossa falta de liberdade, das nossas dependências, da nossa independência? Vivemos numa sociedade pós moderna, plural, complexa, diversificada, com múltiplas pulsões, segundo Freud[2]. “As ciências sociais dizem-nos que o homem é o produto das forças sociais e económicas que o manejam como um peão num jogo de xadrez.”[3]

“Em alguns momentos de paragem, surpreendentemente e com honestidade dou conta que faço o que não quero, e que não quero o que faço!”

Há estímulos, desejos, que nos atraem, que são compulsivos à sua satisfação. Se a nossa única atitude é o uso, não temos alternativa, estamos presos, dependentes do seu uso. Para nos libertarmos precisamos de não usar. Esta renúncia torna-nos independentes, mais livres para aceitar ou rejeitar.[4] São os caminhos da sobriedade, do desprendimento, da modéstia, da humildade.

A temperança é um caminho obrigatório para o bem-estar. A temperança é a virtude que modera a atracção pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados[5]. A temperança assegura o domínio da vontade sobre as pulsões. A temperança reforça a vontade.

Para ser livre das dependências que nos escravizam é preciso em primeiro lugar observar a vida pessoal, como observador externo a si mesmo, com honestidade, objectividade. Depois, estabelecer as hierarquia de valores e princípios, com realismo e conhecendo as limitações pessoais. Finalmente, usar uma vontade firme para decidir, tomar atitudes conformes ao seu ideal, ao seu projecto pessoal.[6]

“Mas esta é uma luta perdida! Toda a gente pensa assim! “

“Que cada um proceda como se toda a mudança dependesse só de si.” [7]

Ser um ser humano significa ir até ao fim de nós mesmos, transcender a nossa imanência, ultrapassar os nossos limites, tender para a perfeição em cada momento, em cada circunstância. Fazer o bem, em cada aspecto da nossa vida.

As dependências exigem um treino contínuo. Para ter boa forma física, é necessário exercício regular. Também para viver em liberdade é preciso exercício contínuo da vontade, de renúncia. Passar um dia a pão e água, nas condições habituais de tudo dispor a qualquer hora, ajuda-nos a tomar consciência da necessidade, da possibilidade de controlo sobre o que fazemos, sobre o que queremos fazer da nossa vida. Eu gosto de comer isto ou aquilo, mas posso passar sem comer. O jejum e a oração põem-nos no centro da nossa vida, na relação com o essencial, com o Absoluto que está para além de nós, com Deus, transporta-nos para a graça, caminho de aperfeiçoamento e de felicidade.

Não há liberdade sem oração, sem espiritualidade. Dia a dia é preciso rever no silêncio, sentado a um canto no chão ou de joelhos a uma janela, o dia que passou, dizer como vai a nossa vida, que projectos temos para o dia seguinte, ouvir o que é esperado de nós. Cada dia é preciso dizer pelas nossas próprias palavras: “Senhor, em breve vou adormecer. Agradeço-te este dia com todas as suas alegrias e todas as suas complicações. Entrego-me nas tuas mãos. Perdoa-me os meus erros, as minhas negligências. Que eu possa entender o que queres de mim na hora que passa, hoje, agora, aqui, amanhã, onde estiver. Amem!”[8]   


 

[1] Haering Bernard, Livres e Fiéis em Cristo. São Paulo, ED. Paulinas, 1982, p. 30.

[2] Damasceno F, Sobriedade in Elyane Yones, Virtudes. Rio de Janeiro, Ed Loyola, 2001, p. 117-123.

[3] Fizzotti Eugénio, Para ser Livre. Lisboa, Paulinas, 1996, p.91.

[4] Kloppenburg Boaventura, Virtudes Frutos que o pai espera. Petrópolis, Ed. Vozes, 2001, p. 45.

[5] Catecismo da Igreja Católica. Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1993, p. 398.

[6] Rojas Enrique, O Homem Light. Coimbra, Gráfica de Cimbra, 1994, p. 91.

[7] Damasceno F, Sobriedade in Elyane Yones, Virtudes. Rio de Janeiro, Ed Loyola, 2001, p. 271.

[8]Pratt Lonic, Homan Daniel, Benedict`s Way. Chicago, Loyola Press, 2000, p. 43