Ano Pastoral 2005/2006

Viver em liberdade, construir o amor

Reflexão para o Tempo de Advento

“Desprendimento e liberdade”
 

Desprendimento e liberdade

 

Sente-se livre? Leve? Solto? Feliz?

Sente-se bem?

Gostaria de estar melhor?

Estar bem comigo mesmo, ser feliz, depende da minha liberdade.

Quem não é livre não pode ser feliz! A liberdade é um meio para alcançar a paz, a felicidade.

O único caminho seguro para qualquer ser humano é o da perfeição. Hoje melhor do que ontem, amanhã melhor do que hoje. Dia a dia sem parar até ao nosso limite, até ao máximo da nossa liberdade, a liberdade para além do tempo e do espaço.

A liberdade não é um bem que se compre, que se encontre em qualquer esquina da vida. A liberdade conquista-se com esforço, com renúncias às cadeias que nos cativam, rejeitando o que nos prende.

Faz o que quer? Quer o que faz? Ou faz sem querer?

Ser livre não é fazer o que se quer, mas o que é bem para nós, o que nos faz bem. Por isso é que a liberdade é o caminho para a felicidade.

Os seres humanos têm desejos, pulsões. Procuram a satisfação dos seus desejos se possível até ao limite. Mas porque o desejo não tem limite, atrás do desejo outro desejo vem[1]. É a sofreguidão inesgotável.

O desejo é a força para ter, aceder a algo ainda não obtido. O desejo humano pode ser orientado pela vontade. A vontade é uma força restabelecida a partir de um desejo, a sua orientação para uma finalidade. Na liberdade, a vontade pode orientar o nosso desejo segundo o que é melhor, segundo o nosso bem, a nossa razão de viver.

A liberdade exige discernimento, coragem, maturidade. Discernimento para distinguir o essencial do acessório. Coragem para evitar, rejeitar o acessório. Mas o acessório pode ser atraente. A maturidade permite-nos tomar consciência das prioridades, não nos deixarmos enganar pela aparência.

Esta liberdade exige, força, coragem, higiene, disciplina: de ideias e de ideais, de vontades, de atitudes, de palavras, de opções. Por todos estes meios nos podemos libertar ou prender, deixar prender.

É preciso esforço contínuo para libertar, para evitar prender, esforço para des-prender.

O desprendimento é uma condição obrigatória para a liberdade. Desprender das ideias fúteis que nos ocupam, dos pensamentos vazios que às vezes nos enchem a mente. Desprender dos bens que nos fazem mal.

Mas nesta sociedade em que vivemos, a humanidade está ao serviço da sacralizada trindade da economia, do mercado e do lucro.

“Já tem o último modelo?” “Novo!” “Seja mais feliz com a nova caixa de sabonetes, com o novo aparelho, com a nova apresentação”. “Está quase a esgotar, não perca, vá já, antes que tenha tempo para pensar!” “Facilidades a custo zero!” “Comprem!” “Ter … é ser feliz!” Ser feliz é consumir o dinheiro, os recursos, o tempo, até à exaustão e ficar preso a obrigações, a créditos, a dívidas, a hábitos e a vícios! Trabalhar para consumir, consumir-se a trabalhar!

A Comida, a bebida, o luxo, a ostentação, a fama, o protagonismo, o dinheiro, o poder, o prazer, a superioridade, são os interesses que alguns querem apresentar como o mais importante da vida, do mundo, a razão de viver, a finalidade.

A publicidade impressiona-nos como se não houvesse alternativa, outras preocupações. De forma agressiva e insidiosa cativam a nossa atenção, provocam a nossa distracção. Ficamos atentos às luzes, aos brilhos, aos ruídos, às vaidades. Ficamos tão absorvidos que, momentaneamente, esquecemos as nossas angústias. Ficamos distraídos do essencial da nossa vida.

Canais de televisão, jornais, rádios, cartazes, mostram, convidam, propõem, impõem padrões de consumo, produzidos pelos interesses dos vendedores.

O progresso técnico e científico têm conduzido a nossa civilização ocidental ao conforto, à facilidade, através da comercialização indiscriminada de coisas, para todas as satisfações imagináveis, sem quaisquer preocupações éticas, nem higiénicas[2]. Os bens, as coisas, não são maus em si[3]. O que pode ser boa ou má é a relação que estabelecemos com elas, o lugar, a importância que lhes damos na nossa vida.

“Quando nos libertamos da escravidão das necessidades materiais e tomamos a vida a sério, não a podemos reduzir à busca do conforto, à satisfação dos desejos.”[4] Esta liberdade traz-nos disponibilidade para o sentido mais profundo da nossa vida. Este sentido para a vida, pode assim dar consistência aos muitos fragmentos em que dividimos a nossa existência, na família, no trabalho, na relação com os outros, na economia, na política, na religião, no ócio e em tantas outras coisas. A consistência da vida concentra as nossas energias, liberta-nos da angústia, tira-nos os medos, dá-nos integridade, projecta-nos para a perfeição absoluta.

O Absoluto está sempre disponível, envolve-nos, impregna-nos. Sempre que fazemos o bem, sentimo-lo, presente no momento concreto e real, activo e transformador.

Este tempo, vivido no desprendimento, pode ser para nós, de espera, de atenção.

A nossa felicidade pode estar na liberdade de não comprar, de não possuir, de não ter. A nossa felicidade pode estar no ser, no Deus que é, proposto por Jesus Cristo.

A simplicidade é o caminho para a liberdade. Em tudo e em cada uma das coisas da nossa vida. Sobriedade, modéstia, humildade, discrição. Desprendimento. Caminhos de liberdade, para ficar disponível para o essencial da vida.

Ser livre, ser desprendido, ser feliz.

Ter o mínimo, ser o máximo.

 


[1] Renaud Isabel, A filosofia do desejo. Cad Bioética, 2004 (35), p. 9-16.

[2] Kloppenburg Bartolomeu, Virtudes, Frutos que o Pai espera. Petrópolis, Ed. Vozes, 2001, p. 45-46.

[3] Conselho Pontifício Justiça e Paz, Compêndio de Doutrina Social da Igreja. Cascais, Ed. Principia, 2005, P. 210.

[4] Légaut Marcel, Introduction à intéligence du passé et de avenir du christianisme, referido por Henri Le Boursicaud, Fonte de Vida. Vilar do Pinheiro, Ed. do autor, 2001, p. 214.