Ano Pastoral 2005/2006

Viver em liberdade, construir o amor

Reflexão para Outubro e Novembro:

A Liberdade a partir de Jesus Cristo
 

 “O homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo e, apesar de tudo, é livre, porque uma vez lançado no mundo é responsável de tudo o que se faz”. (Sartre)

 “Ninguém é mais escravo que aquele que se crê livre sem o ser”. (Goethe)

 “É só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis «deixar o homem entregue à sua própria decisão», para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. Exige, portanto, a dignidade do homem que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coacção externa. O homem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes. A liberdade do homem, ferida pelo pecado, só com a ajuda da graça divina pode tornar plenamente efectiva esta orientação para Deus” (Gaudium et Spes 17)

A resposta espontânea à pergunta: «O que é ser livre?» é a seguinte: é livre aquele que pode fazer unicamente o que quiser, sem ser impedido por coacção externa e que, por conseguinte, goza de plena independência. O contrário da liberdade seria, assim, a dependência da nossa vontade a uma vontade estranha.

A expressão tão corrente de que «a minha liberdade acaba onde começa a dos outros», se virmos bem, é uma expressão pagã, incompatível com a experiência cristã de liberdade. Por outro lado, não tem consistência nem resiste a uma análise crítica. Debaixo desta expressão há uma concepção individualista e solitária da pessoa, uma visão solitária da liberdade, gérmen de incompatibilidades e possíveis agressões. Se as coisas fossem assim, uma pessoa teria a tentação de alargar a própria liberdade, reprimindo os âmbitos de liberdade dos outros.

Para podermos viver em plenitude a liberdade humana e cristã e assim nos sentirmos realizados como pessoas é-nos proposto a contemplação e o seguimento de Cristo libertador. Durante a Sua história, Jesus aparece como aquele que anuncia a Boa Nova da salvação numa realidade conflituosa e dolorosa. Nela Jesus assume o plano de Deus Pai e age com grande liberdade diante dos poderes políticos e religiosos do seu tempo. Não se deixa dominar por nenhum absolutismo e insiste no que é fundamental, a abertura a Deus e aos irmãos. A morte que Jesus sofreu aparece como a fidelidade de Jesus ao anúncio do Reino, que questionava as estruturas políticas e religiosas.

Este modo de contemplar Jesus, partindo das realidades injustas e opressivas, conduz-nos a compreender o que significa viver “em Cristo” e segui-Lo. Assim somos convidados a relacionarmo-nos com Deus, com as pessoas e com o mundo à imitação do Jesus da história. Ele relacionou-se com Deus como Pai, com as pessoas como irmãos e irmãs e experimentou o mundo como lugar de encontro com Deus e com os irmãos. Esta postura conduz-nos a uma vivência humana e cristã comprometida na linha de Jesus Cristo. Ele, sendo o Homem livre por excelência, trabalhou na libertação das pessoas, anunciando uma mensagem religiosa, mas com implicações e consequências sociais.

Esta experiência, que caracteriza a pessoa empenhada com os outros e com o mundo, no seu processo de libertação, e que é consequência da contemplação e do seguimento de Jesus Cristo, leva-nos a viver os valores da fortaleza, da paciência, da mansidão e do auto-domínio, suportando no nosso corpo e no nosso espírito os momentos de perseguição e de cruz. Jesus Cristo foi condenado e morreu sobre uma cruz, precisamente por anunciar uma mensagem denunciadora das injustiças e opressões e por ter optado preferencialmente pelo serviço dos mais pobres e dos pecadores, a fim de estabelecer entre as pessoas uma fraterna e autêntica comunhão.

A liberdade cristã é, em si mesma, social, acolhedora e solidária com a liberdade dos outros. As liberdades dos homens abrem-se umas às outras, encontrando-se, solidarizam-se no amor, que é acolhimento, perdão, solidariedade, generosidade, fidelidade e fortaleza, com esperança.

O mundo humano, visto e vivido cristãmente, não é um mundo de homens livres, solitários e desconfiados, mas um mundo de irmãos que se acolhem, se respeitam e se ajudam na sua liberdade e a partir da sua liberdade.

A liberdade não é um fim em si mesma, é uma qualidade do nosso ser que deve qualificá-lo todo, que nos permite viver, sendo protagonistas e responsáveis da nossa própria vida, ao mesmo tempo que colaboramos na dos outros. Esta forma de ser obriga-nos a viver em função de um projecto de nós mesmos e dos outros que responda à verdade, que tenha em conta as condicionantes da nossa existência, que se mova em consonância com as fontes do ser e da vida. Viver livremente é viver na verdade e no bem, procurando sempre o desenvolvimento da vida e da felicidade. Por tudo isto não é separável a plenitude da liberdade do reconhecimento de Deus e da existência em Cristo.

Podemos pois dizer que a liberdade humana, entendida e vivida a partir da fé em Cristo, é uma liberdade:

pessoal, que nasce de dentro de nós mesmos;

social e partilhada pelo amor;

ao mesmo tempo interna e externa que nasce de dentro, mas que tem de se desenrolar em toda a amplitude pessoal, familiar, social, política da vida pessoal e humana;

escatológica, que só se realiza plenamente na vida eterna, que vive aqui como pendente daquela suprema realização, alimentando-se e sustentando-se pela esperança da sua plenitude final;

recebida gratuitamente de Deus e vivida criativamente por cada um de nós;

que se vive como arrependimento e penitência a respeito de cada um e como perdão e misericórdia a respeito dos outros;

não compatível com a obediência, mas que é em si mesma obediente, amorosa, acolhedora da realidade e das mediações que nos revelam e comunicam a plenitude do ser e da vida que vem de Deus;

criativa dum futuro sempre aberto, superior a todas as formas possíveis de cansaço e de fastio, sempre renovada e renovadora, sempre aberta e iludida, sempre esperançada e responsável de criações novas, pela graça de Deus.

A liberdade dos filhos e das filhas de Deus revela-se plenamente no abandono voluntário de se deixar conduzir pelo Espírito. A pessoa diz a Deus, em Cristo, o “sim” da caridade e do amor numa dinâmica de filiação obediente. Pela acção salvadora de Cristo que se define como uma “redenção” e como uma “libertação”, o cristão é afastado do pecado e da morte e é elevado à condição de filho de Deus. Isto gera em nós uma dupla atitude: serena confiança no amor do Pai e filial obediência à sua vontade.

Porque somos filhos de Deus, somos homens e mulheres livres, possuidores de serenidade interior, de paz, de alegria, de esperança, de coragem. Devemos fazer frutificar e comunicar com simplicidade e alegria este dom que Cristo nos entregou.

Somos filhos, vivemos no mundo, como quem está em casa de seu pai, na sua própria casa, sem medo, sem temor. Em Jesus, de facto, a liberdade humana foi alargada e aprofundada.

Assim, apoiados em Cristo, a nossa liberdade humana é uma liberdade que:

nasce do reconhecimento de Deus como Deus de graça e de misericórdia;

se abre à liberdade dos outros num amor solidário e fraterno, responsável e misericordioso;

se afirma a partir da sua própria raiz interior, como aparecimento autêntico de si mesmo, na verdade, sem falsificações nem perversões, sem temor à vida, nem à morte; uma liberdade liberta a partir de si mesma;

é recebida de Deus na criação, devolvida e consumada gratuitamente por meio de Cristo e pelo dom interior do Espírito Santo;

se desdobra na verdade pelo amor nas mil manifestações inovadoras e originais da vida cristã: piedade, obediência, perdão, fortaleza, generosidade, magnanimidade.

A liberdade cristã é a capacidade de viver na presença de Deus conforme à verdade da nossa vocação, revestidos do Homem Novo que é Jesus Cristo, pela força do Espírito Santo, refazendo a vida inteira no amor, enquanto esperamos a sua vinda gloriosa e a humanidade nova da ressurreição.

O desenvolvimento duma sociedade livre plenamente humana não é possível sem o reconhecimento de Deus ou pelo menos sem um clima de busca da verdade última do homem, num clima de autêntico respeito para com a liberdade profunda do homem que vive procurando a sua verdade definitiva.

Daqui se vislumbra a importância da missão da Igreja na sociedade: despertar nos cristãos o verdadeiro sentido da sua liberdade, para que eles, actuando como cidadãos de acordo com a sua experiência cristã, sejam capazes de criar uma sociedade na qual se reconheça plenamente a liberdade profunda dos homens e estes se vejam estimulados a ser homens e mulheres livres, no respeito pela verdade da vida, mediante a força comunicativa e generosa do amor verdadeiro, a partir duma liberdade radical vivida na verdade de Deus e pela força do seu Espírito.